A rápida passagem do G-20 por Londres deixou promessas e lançou apostas no ar. O consenso de que será preciso coordenar ações parece bem evidente. Serão as ações coordenadas contra a crise que poderão multiplicar os efeitos para além dos horizontes limitados de cada economia nacional.
Bem, uma coisa é o consenso formal sobre o potencial multiplicador da coordenação de políticas para minimizar os efeitos da recessão mundial que se instala. Outra coisa muito diferente é viabilizar politicamente este famoso “trade-off” entre demandas imediatas de natureza interna e os benefícios mais abstratos e de médio prazo das concessões de autonomia demandadas pela engenharia da coordenação internacional de políticas.
Se, em momentos de crise e incerteza Keynes identificou a tendência da “preferência pela liquidez”, no plano das relações econômicas internacionais, também parece vigorar a “preferência pela autonomia”, uma espécie de lei de ferro segundo a qual os agentes políticos preferem manter uma margem de autonomia em momentos de crise, em detrimento de iniciativas de coordenação.
Analisando os casos históricos anteriores, os vários exemplos parecem confirmar a regra de que quanto maior a crise, menores são os espaços disponíveis para acomodar acordos de cooperação e iniciativas de coordenação no plano internacional, e vice-versa. As crises da década de 1970 paralizaram por dez anos o avanço da integração regional no mundo, em especial da comunidde européia, além de congelar a Rodada de Tokyo do GATT. Por outro lado, o crescimento do pós-guerra, com seus “trinta gloriosos”, conseguiu acomodar as concessões necessárias para a consolidação de um sistema monetário internacional gravitando ao redor do dólar americano, mas também outras iniciativas, como o G-77 ou a Comecom socialista. Da mesma maneira, o boom econômico “pós-muro” parece ter criado as condições necessárias para relançar regionalismos, consolidando a União Européia, o Mercosul, entre outros entendimentos. Foi nesse mesmo ambiente de crescimento que foi possível a muito complexa institucionalização da OMC em 1995 e ainda dos compromissos ambientais do Rio e de Kyoto. Os mesmos compromissos (como as metas de redução emissão de gases) que, diante de assustadores índices de desemprego de hoje, parecem estar escorrengando discretamente para as notas de rodapé de todos os programas.
A tensão pós-crise parece mais uma vez contrapor os dilemas da ação coletiva, oscilando entre tendências unilaterias, imediatistas e competitivas e, por outro lado, tendências multilaterais, de médio prazo e cooperativas. Entretanto, conciliação, coordenação e concessões são, às vezes, de difícil realização, pois os interesses e as prioridades são irretratáveis.
A tradicional “entente atlântica” entre inglese e americanos se renova, motivada pela proximidade do epicentro do cismo financeiro, que une a City e Wall Street. Para evitar uma recessão prolongada (fator que certamente irá inviabilizar politicamente os projetos de Obama e Gordon Brown) o projeto atlântico prevê ampliação coordenada de medidas para combater a recessão mundial, combinando necessariamente gastos públicos com livre comércio.
Compreensível, uma política fiscal agressiva, baseada em gasto público, teria seus efeitos multiplicadores ampliados se efetuado em todas as economias simultaneamente, transmitindo benefícios através do comércio exterior. Mas, promover gasto público dentro de um ambiente de protecionismo pode significar aquecer a economia do vizinho. Por essa razão, é de vital importância lançar pacote coletivo com o intuito de recompor a demanda da economia mundial e abreviar a recessão, através de gastos públicos, em escala internacional e tudo isso necessariamente de maneira articulada com redução de protecionsimos.
A questão do protecionismo não é retórica ou acadêmica. A onda protecionista já está formada e em movimento. Agravada por uma contração aguda no começo de 2009, caindo 13% em relação ao mesmo período de 2008, como demonstram as primeiras estimativas da OMC, as perspectivas de retomada das negociações da Rodada de Doha da OMC parecem ínfimas, ao mesmo tempo em que muitos países lançam mão de salvaguardas regulamentares, ou simplesmente aumentando o protecionismo comercial, tendência identificda, por exemplo, em 17 dos 20 países do G-20.
Mas, o problema é que, quando se fala além atlântico em ampliação keynesiana do gasto público, o que é entendido no continente europeu é gasto de dinheiro do contribuinte para salvar o setor privado. Questão polêmica na Europa. Ali, por razões culturais e políticas, a prioridade parece ser respeitar o dinheiro do cidadão, enquanto nos EUA o importante parece ser respeitar o dinheiro do consumidor.
Estas prioridades de ação contam com a oposição da França e da União Européia, mas principalmente da Alemanha, criticando explicitamente a chamada “estratégia atlântica”. A leitura européia sobre as prioridades pós-crise, enfatizando o caráter importado da crise, defende apenas iniciativas fiscais individualizadas em cada páis, combinadas com uma ênfase muito maior nas ações de reforma imediata dos mercados financeiros. Até porque, o pacote anti-crise alemão já consumiu, em apenas um semestre, recursos públicos da ordem de 4% do PIB alemão.
No caso alemão, muito do impacto da crise deve-se ao fato desta economia ter se transformado, no espaço de uma geração, ma maior exportadora da economia mundial, com um terço do PIB de 10 trilhões de dólares orientado para a demanda do mercado externo.
A perepção européia julga aconselhável agora esperar pelos efeitos da “fase monetária” do pacote anti-crise, para, depois, e eventualmente, lançar medidas fiscais mais ativas. Além disso, predimina a percepção de que a recessão será dura, mas deverá durar algo em torno de 12 meses, um período adminstrável, em comparação com os efeitos de longo prazo de um grnade déficit público. Além disso, existe na Europa uma grande discussão sobre se a renúncia fiscal sobre certos bens duráveis realmente pode produzir efeitos significativos, ainda mais se comparados com os riscos de agravamento da situação fiscal.
O temor europeu é gerar déficits públicos irrecuperáveis, o que pode vir a colocar em risco a própria moeda comum num futuro não muito distante, ainda mais diante de um cenário onde várias economias européias já se encontrarem em grave desequilíbrio, como é o caso dos países do leste europeu e ainda o caso dos chamados PIGs (Portugal, Itália e Espanha). A tradicional meta européia de limitar os déficits públicos a 3% do PIB já foi relaxada pelo Banco Central europeu, diante das dificuldades de várias economias européias. Isso num momento em que a Alemanha havia conseguido zerar o déficit público em 2008 pela primeira vez em 20 anos.
A ênfase desse projeto claramente não é regulatória, deixando as tarefas principais de reforma da governança do sistema financeiro para 2011, e em caso de necessidade. Também no que se refere à reforma do sistema monetário itnernacional, especialmente às funções do FMI, diferentes visões de prioridade pairam sobre o tema. Estados Unidos e Inglaterra preferem deixar essa nova arquitetura para mais tarde, enquanto as grandes economias emergentes, os chamados BRIC, especialemente China e Brasil, reforçam o coro da reforma. Especialmente, e essa é a demanda especificamente dos emergentes, se for viabilizada politicamente uma reforma que, ao mesmo tempo, traga o FMI de volta para a centralidade da economia política e que aproxime os grandes emergentes, por sua vez, do centro de decisão desse novo FMI, como uma estratégia de ampliar voz e vez desses países. É por essa razão que a China lançou aundacioso plano de nova moeda internacional emitida pelo FMI, substituindo o dólar americano e foi por essa razão que vários emergentes, como o Brasil, se mobilizaram para aportar recursos adicionais para o Fundo.
Bem, uma coisa é o consenso formal sobre o potencial multiplicador da coordenação de políticas para minimizar os efeitos da recessão mundial que se instala. Outra coisa muito diferente é viabilizar politicamente este famoso “trade-off” entre demandas imediatas de natureza interna e os benefícios mais abstratos e de médio prazo das concessões de autonomia demandadas pela engenharia da coordenação internacional de políticas.
Se, em momentos de crise e incerteza Keynes identificou a tendência da “preferência pela liquidez”, no plano das relações econômicas internacionais, também parece vigorar a “preferência pela autonomia”, uma espécie de lei de ferro segundo a qual os agentes políticos preferem manter uma margem de autonomia em momentos de crise, em detrimento de iniciativas de coordenação.
Analisando os casos históricos anteriores, os vários exemplos parecem confirmar a regra de que quanto maior a crise, menores são os espaços disponíveis para acomodar acordos de cooperação e iniciativas de coordenação no plano internacional, e vice-versa. As crises da década de 1970 paralizaram por dez anos o avanço da integração regional no mundo, em especial da comunidde européia, além de congelar a Rodada de Tokyo do GATT. Por outro lado, o crescimento do pós-guerra, com seus “trinta gloriosos”, conseguiu acomodar as concessões necessárias para a consolidação de um sistema monetário internacional gravitando ao redor do dólar americano, mas também outras iniciativas, como o G-77 ou a Comecom socialista. Da mesma maneira, o boom econômico “pós-muro” parece ter criado as condições necessárias para relançar regionalismos, consolidando a União Européia, o Mercosul, entre outros entendimentos. Foi nesse mesmo ambiente de crescimento que foi possível a muito complexa institucionalização da OMC em 1995 e ainda dos compromissos ambientais do Rio e de Kyoto. Os mesmos compromissos (como as metas de redução emissão de gases) que, diante de assustadores índices de desemprego de hoje, parecem estar escorrengando discretamente para as notas de rodapé de todos os programas.
A tensão pós-crise parece mais uma vez contrapor os dilemas da ação coletiva, oscilando entre tendências unilaterias, imediatistas e competitivas e, por outro lado, tendências multilaterais, de médio prazo e cooperativas. Entretanto, conciliação, coordenação e concessões são, às vezes, de difícil realização, pois os interesses e as prioridades são irretratáveis.
A tradicional “entente atlântica” entre inglese e americanos se renova, motivada pela proximidade do epicentro do cismo financeiro, que une a City e Wall Street. Para evitar uma recessão prolongada (fator que certamente irá inviabilizar politicamente os projetos de Obama e Gordon Brown) o projeto atlântico prevê ampliação coordenada de medidas para combater a recessão mundial, combinando necessariamente gastos públicos com livre comércio.
Compreensível, uma política fiscal agressiva, baseada em gasto público, teria seus efeitos multiplicadores ampliados se efetuado em todas as economias simultaneamente, transmitindo benefícios através do comércio exterior. Mas, promover gasto público dentro de um ambiente de protecionismo pode significar aquecer a economia do vizinho. Por essa razão, é de vital importância lançar pacote coletivo com o intuito de recompor a demanda da economia mundial e abreviar a recessão, através de gastos públicos, em escala internacional e tudo isso necessariamente de maneira articulada com redução de protecionsimos.
A questão do protecionismo não é retórica ou acadêmica. A onda protecionista já está formada e em movimento. Agravada por uma contração aguda no começo de 2009, caindo 13% em relação ao mesmo período de 2008, como demonstram as primeiras estimativas da OMC, as perspectivas de retomada das negociações da Rodada de Doha da OMC parecem ínfimas, ao mesmo tempo em que muitos países lançam mão de salvaguardas regulamentares, ou simplesmente aumentando o protecionismo comercial, tendência identificda, por exemplo, em 17 dos 20 países do G-20.
Mas, o problema é que, quando se fala além atlântico em ampliação keynesiana do gasto público, o que é entendido no continente europeu é gasto de dinheiro do contribuinte para salvar o setor privado. Questão polêmica na Europa. Ali, por razões culturais e políticas, a prioridade parece ser respeitar o dinheiro do cidadão, enquanto nos EUA o importante parece ser respeitar o dinheiro do consumidor.
Estas prioridades de ação contam com a oposição da França e da União Européia, mas principalmente da Alemanha, criticando explicitamente a chamada “estratégia atlântica”. A leitura européia sobre as prioridades pós-crise, enfatizando o caráter importado da crise, defende apenas iniciativas fiscais individualizadas em cada páis, combinadas com uma ênfase muito maior nas ações de reforma imediata dos mercados financeiros. Até porque, o pacote anti-crise alemão já consumiu, em apenas um semestre, recursos públicos da ordem de 4% do PIB alemão.
No caso alemão, muito do impacto da crise deve-se ao fato desta economia ter se transformado, no espaço de uma geração, ma maior exportadora da economia mundial, com um terço do PIB de 10 trilhões de dólares orientado para a demanda do mercado externo.
A perepção européia julga aconselhável agora esperar pelos efeitos da “fase monetária” do pacote anti-crise, para, depois, e eventualmente, lançar medidas fiscais mais ativas. Além disso, predimina a percepção de que a recessão será dura, mas deverá durar algo em torno de 12 meses, um período adminstrável, em comparação com os efeitos de longo prazo de um grnade déficit público. Além disso, existe na Europa uma grande discussão sobre se a renúncia fiscal sobre certos bens duráveis realmente pode produzir efeitos significativos, ainda mais se comparados com os riscos de agravamento da situação fiscal.
O temor europeu é gerar déficits públicos irrecuperáveis, o que pode vir a colocar em risco a própria moeda comum num futuro não muito distante, ainda mais diante de um cenário onde várias economias européias já se encontrarem em grave desequilíbrio, como é o caso dos países do leste europeu e ainda o caso dos chamados PIGs (Portugal, Itália e Espanha). A tradicional meta européia de limitar os déficits públicos a 3% do PIB já foi relaxada pelo Banco Central europeu, diante das dificuldades de várias economias européias. Isso num momento em que a Alemanha havia conseguido zerar o déficit público em 2008 pela primeira vez em 20 anos.
A ênfase desse projeto claramente não é regulatória, deixando as tarefas principais de reforma da governança do sistema financeiro para 2011, e em caso de necessidade. Também no que se refere à reforma do sistema monetário itnernacional, especialmente às funções do FMI, diferentes visões de prioridade pairam sobre o tema. Estados Unidos e Inglaterra preferem deixar essa nova arquitetura para mais tarde, enquanto as grandes economias emergentes, os chamados BRIC, especialemente China e Brasil, reforçam o coro da reforma. Especialmente, e essa é a demanda especificamente dos emergentes, se for viabilizada politicamente uma reforma que, ao mesmo tempo, traga o FMI de volta para a centralidade da economia política e que aproxime os grandes emergentes, por sua vez, do centro de decisão desse novo FMI, como uma estratégia de ampliar voz e vez desses países. É por essa razão que a China lançou aundacioso plano de nova moeda internacional emitida pelo FMI, substituindo o dólar americano e foi por essa razão que vários emergentes, como o Brasil, se mobilizaram para aportar recursos adicionais para o Fundo.
(Fernando Padovani)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
olá, deixe o seu comentário !