terça-feira, 12 de abril de 2022

Uma leitura geopolítica do conflito na Ucrânia



(Fernando PADOVANI)

1.  geopolítica é uma maneira de organizar e entender os fatos da realidade social e histórica, uma metodologia, um mapa do pensamento, que por vezes revela e por outras esconde particularidades da realidade complexa e múltipla, não sendo a verdade, mas sendo sempre inspiradora: boa pedida para um passeio pelos seus pressupostos, e de maneira aplicada ao caso presente da Ucrânia...

2.  dentro seus propostas analíticas, está a racionalidade dos atores, as unidades políticas, que hoje são os Estados nacionais, uma racionalidade que se move sempre em função do desejo último e imperativo de sobrevivência enquanto tal, enquanto unidade política independente; unidades que se movem num jogo estratégico sobre um tabuleiro geográfico, que conta com acidentes geográficos, cordilheiras, planícies, mares, recursos, mas sempre nesse propósito racional de sobrevivência, fazendo coalizões, influenciando vizinhos e, se for o caso, atuando com violência, mediante exércitos e armamentos; sendo assim, as considerações de natureza jurídica ou institucional, ou seja, o "deve-ser", não contam como variável em última instância...

3.  a partir dos pressupostos clássicos da geopolítica, podem se entender alguns de seus adágios básicos, como por exemplo a noção de que, um Estado, tendo percebido uma ameaça à sua existência vital, e tendo poder para agir, agirá por quaisquer e todos os meios, inclusive através da ação militar; no mesmo sentido, deve ser entendida a noção de que a guerra não é um ato de irracionalidade selvagem, mas apenas a calculada continuação da negociação diplomática por outros meios...

4.  alguns desses princípios analíticos podem ajudar para revelar e organizar melhor os fatos soltos da crise política na ucrânia, que culminou com a invasão de tropas russas; começando pelo dimensão "macro" da geopolítica, pelos movimentos geopolíticos de longo prazo, estruturais, os eventos da ucrânia parecem confirmar a hipótese de "vazio de poder", ou, no caso, da tendência de "fraqueza" do ocidente, e em especial dos eua, como fator determinante das decisões e dos acontecimentos; mais do que qualquer outro fator, a decisão russa pela invasão se deve à percepção de que não haveria a menor chance de reação ocidental, da Otan, para qualquer solução de força empreendida...

5.  a percepção de tal tendência já havia mostrado seus sinais ao longo da última década, mas ficou clara com a "jogada da toalha" dos eua em kabul, em julho de 21; a retirada atabalhoada das tropas americanas de kabul, retomada pelo taliban, conclui um longuíssimo e caríssimo processo de intervenção americana no oriente distante (afeganistão, iraque, síria, líbia), intervenções entusiasticamente apoiadas nos momentos de patriotismo, mas que trouxeram lastros pesados para o crescimento e a competitividade da economia americana no longo prazo; o completo esgotamento desse modelo intervencionista (no melhor estilo “imperial over-strecht”) ficou mais agudo, insustentável, nos dois anos da pandemia, com desemprego, crise social, endividamento, baixo crescimento, etc.; a "provocação" do taliban de retomar kabul (em julho de 21), sem “esperar” a cerimônia de saída americana, sem que isso provocasse a menor tentativa de manter as aparências por parte dos americanos, trazendo de volta milhares de soldados, emitiu sinais claros desse esgotamento, e assim, sinais de fragilidade geopolítica, percebido pelas potências médias rivais...

6.  essa sinalização de retração americana teria sido a "janela de oportunidade" que motivou a rússia de putin a recuperar o terreno perdido para a otan no “front” da europa oriental, a partir dos pressupostos geopolíticos da racionalidade, do imperativo de sobrevivência, e do vazio de poder; anos de descontentamento, queixas, tensões russas em relação ao avanço da otan na região, e especialmente na ucrânia, já vinham se acumulando desde 2007, mas havia, então, pouco espaço para movimentações concretas por parte da rússia, para além do plano jurídico, das organizações e dos discursos; a partir de 2015, a rússia já vinha fazendo testes, como no caso da criméia, empreendendo ações de força sem, entretanto, provocar grandes reações ocidentais, além das sanções protocolares; ao mesmo tempo, o ocidente buscava incomodar o espaço russo, através da militarização da ucrânia e dos países do leste europeu, além de não cumprir os acordos de minski, provocando uma situação de tensão latente na região do leste ucraniano, o dombass, com o conflito aberto...

7.  a "jogada da toalha" americana em kabul em 2021, além do acúmulo de problemas sociais e econômicos provocado pelas políticas públicas adotadas no ocidente, provocando uma crise auto-inflingida, acendeu um grande sinal verde para a rússia agir de maneira violenta, segura que estava da incapacidade de resposta do ocidente, seja pelo endividamento americano, pela crise econômico-social, pela polarização política, pela liderança enfraquecida, pela dependência energética, pelo esgotamento do modelo "hawk" de intervenções em países distantes, pela desunião dentro da otan, pela acrescida dependência energética, especialmente na europa...

8.  uma avaliação aparentemente acertada por parte da rússia, pois em nenhum momento europa e eua ousaram ensaiar qualquer ação militar concreta para inibir a rússia, como ficou evidente pelo caso quase vexatório dos migs poloneses e pelas declarações enfáticas de biden de "no boots on the ground"...

9.  nesse contexto, menção especial merecem as "sanções econômicas"; independentemente do debate abstrato de sua efetividade, mesmo com a recusa de muitas economias emergentes importantes em aderir às sanções contra a rússia, com destaque para o apoio incondicional da china, e mesmo da recusa dos próprios países europeus em estender tais sanções para a única dimensão relevante, ou seja, o corte das importações de gás russo, uma questão central para o entendimento do alcance (geopolítico) das sanções é que elas significam outra coisa quando pronunciadas: "infelizmente, não vamos enviar tropas, lamento!"; a cada vez que alguma liderança política pronuncia a frase "estamos implementando sanções econômicas pesadíssimas", o que deve ser ouvido como tradução mais significativa é a frase "infelizmente, não vamos enviar tropas, lamento !"

10.  diante desse cenário de estrutural imobilismo ocidental, as lideranças políticas optaram pelas trilhas restantes disponíveis, ou seja, de minimização do custo político, eleitoral, de curto prazo, no sentido de contrabalançar a percepção generalizada de debilidade; ao mesmo tempo em que se iniciou um contrabando de armas para dentro da ucrânia, como uma tentativa de última hora de gerar dificuldades para a campanha russa, de aumentar o custo da intervenção, também se iniciou um tiroteio de frases de repúdio, um bombardeio de declarações, de "subidas de tom", gestos de teatro reproduzidas por uma mídia camarada, uma coalizão já forjada recentemente durante a pandemia; no contexto americano, a batalha de narrativas contra putin ganha tons de segurança nacional, de emergência social, a ponto das redes sociais censurarem abertamente posições críticas em relação à guerra; a associação antiga entre putin e trump no contexto político eleitoral americano, os índices de impopularidade do governo biden, a aproximação de novas eleições ("mid-term"), e a possibilidade de retorno eleitoral de trump, transformaram a campanha russa na ucrânia numa nova pandemia, contaminando e enviesando definitivamente a cobertura do conflito, com desdobramentos de demonização histérica de tudo o que se relaciona à cultura russa...

11.  no plano "micro" da geopolítica, na análise específica da ação militar russa no território ucraniano, as ações podem ser entendidas a partir daquele já mencionado princípio clássico da análise geopolítica: "a guerra é a continuação da negociação por outros meios"...

12.  ciente da incapacidade de resposta militar da otan, além de do tradicional bombardeio de frases de efeito ou de campanhas publicitárias nos telejornais, e ciente da complexidade de uma operação sobre uma território extenso e povoado, o comando militar russo parece ter optado por uma estratégia de ocupação gradual, visando a desarticulação de toda a infraestrutura militar ucraniana, aeroportos, bases militares, armamento, asfixiando lentamente a circulação de tropas, ocupando amplas faixas de território, do litoral, cercando sem entrar as grandes cidades, tornando irreversível o panorama militar, tornando a perda de autonomia da ucrânia num fato consumado; serão essas novas realidades militares vindas do terreno que deverão ser levadas para a mesa de negociações: uma irreversibilidade da ocupação militar no terreno aliada à negativa de apoio direto da otan, mesmo diante dos desesperados clamores do presidente zielinski...

13.  as alternativas para o governo da ucrânia seriam esticar indefinidamente a guerra de guerrilha, uma guerra de desgaste, dentro de uma ucrânia ocupada, sem perspectiva de apoio externo além do contrabando de armas leves para o conflito, e sem a mínima chance de reverter a ocupação russa, ou, por outro lado (uma alternativa que se tornou "barata" diante do fato consumado militar russo), atender as concessões impostas pelos russos e poder começar a reconstruir o país e a vida normal com autonomia; ao final da segunda semana da operação russa, zielinsky já havia sinalizado que abriria mão do projeto da otan, e expressou publicamente críticas às lideranças europeias...

14.  diante daquele clássico princípio geopolítico do papel negocial da guerra, cabe aqui um lembrete sobre as prováveis intenções e motivações russas na ucrânia : (a) marcar uma posição (duradoura) diante do ocidente, transformando os estados tampões da bielorússia e ucrânia numa questão "sagrada" ou "tabu" para o futuro da política europeia; (b) não promover em nenhuma hipótese uma "ocupação" da ucrânia, como já amplamente ficou demonstrado pelas ocupações impossíveis no iraque, no afeganistão, síria, vietnam e etc.; (c) não promover nenhum tipo de "expansionismo" ou "imperialismo" russo, nostálgico, mas sim uma "sacralização" das suas prioridades geopolíticas defensivas...

15.  nessa perspectiva, possuindo a análise geopolítica algum traço de coerência, o diagnóstico bastante recorrente nas mídias ocidentais sobre a "loucura" de putin, de sua situação de desconexão da realidade, pode sugerir uma declaração velada de desnorteamento por parte dos analistas públicos...

16.  no que se refere à lista de exigências russas para a paz, com a evolução das operações, começam a parecer “leves”, em comparação com o peso do sofrimento e da destruição causadas pela invasão militar; tal lista inclui : (a) retirada formal da constituição do projeto de adesão à otan; (b) desarmamento-desnuclearização; (c) proteção da língua russa; (d) combate ao ultra-nacionalismo; (e) aceitação formal da anexação da criméia à federação russa e (f) concessão de um estatuto de autonomia para as províncias do dombass...

17.  a análise geopolítica do tabuleiro ucraniano sugere alguns desenvolvimentos possíveis para a situação : (a) muito provavelmente não haverá anexação nem ocupação na ucrânia; (b) não deverá haver uma escalada expansionista russa, de estilo neo-imperial, na região; (c) muito provavelmente não haverá uma escalada de estilo "guerra-fria" no leste europeu, com retomada da polarização, com escalada de ações da otan e da rússia, uma vez que as tensões atuais são pontuais e momentâneas e tendem a se esvaziar-se no médio prazo; (d) a ação russa oficializa uma nova época de tensões entre potências médias, a inauguração de uma espécie de "brics militar", dando continuidade à confrontação do bloco ao G-7 no plano econômico e agora enfrenta encontra espaços vazios para a rebeldia no campo militar; tais tensões tendem a ser um movimento sem volta, pois o G-7 ocidental, ainda que muito poderoso e rico, continua em sua vertente de encolhimento; (f) esta ação russa fora de "uma ordem internacional baseada em regras" pode ser entendida como um legado americano para a sociedade internacional, uma vez que foi o principal responsável pela destruição do edifício do ordenamento jurídico e institucional internacional ao longo do seu reinado como potência hegemônica, atuando como "polícia do mundo" que atuava pela exceção e violência, como as invasões de alto custo humanitário, ao arrepio das organizações e princípios, promovendo ações desse tipo no kosovo, afeganistão, iraque, líbia e síria, e que abriram a avenida pela qual as tropas russas desceram até a ucrânia, e pela qual outras potências médias se sentirão tentadas a utilizar; o legado americano na política internacional são os escombros de uma ordem internacional regida por regras, como brevemente vigorou nos anos 1990, a primavera dos blocos regionais e das organizações internacionais; (g) além disso, a crise política da ucrânia, e as tentativas de retaliação ocidentais, joga de vez a rússia para a sua aventura asiática, na direção do pacífico, e de costas para a europa, num projeto "eurasiano", que, no longo prazo, deverá ser um problema para a rússia, em termos de dependência da china, mas hoje seguramente representa de um importante desvio na encruzilhada...

18.  dentro desse movimento, questões derivadas podem se tornar mais intensas, especialmente a questão do dollar como moeda internacional e de londres como centro financeiro global; as sanções contra a Rússia podem estimular a criação de alternativas financeiras e monetárias para as transações internacionais; no plano geopolítico, a manifestação explícita de várias potências médias no sentido de recusar o alinhamento automático às sanções contra a rússia, tais como méxico, brasil, arábia saudita, irã, israel, índia, áfrica do sul, paquistão, turquia, mais ainda um número significativo de governos asiáticos, além, claro, do ostensivo apoio chinês às iniciativas russas, podem ser indicadores das rachaduras permanentes no bloco da globalização ocidental liderado pelos eua...

(março de 2022)

A crise militar na Ucrânia como mais um fator anti-globalização

 

(Fernando PADOVANI)


Fragmentação, isolacionismo, desconexão, instabilidade institucional. Tendências contrárias à globalização que já estavam em curso desde a crise financeira mundial de 2008, e receberam mais um impulso negativo, mais uma aceleração, com a crise militar na Ucrânia de março de 2022. Sobretudo, em função das medidas de sanção econômica impostas por EUA e União Europeia contra a Rússia.

O ato de rebeldia desafiadora promovido pela Rússia ao invadir militarmente um país protegido pela Otan gerou uma reação estridente nas esferas governamentais e da opinião pública Ocidentais, mas pouco concretas politicamente, se restringindo a bombardeios de declarações, rajadas de “subidas de tom” e, sobretudo, a medidas de sanções econômicas contra os interesses econômicos russos.

Por si só, a efetividade das sanções econômicas impostas são objeto de incertezas variáveis. O grau cinzento de aderência a essas sanções já se apresenta logo de início, e mesmo dentro do Ocidente, em função da dependência energética da Europa em relação à Rússia. A pressão americana no sentido de boicote às compras de gás russo, somada à quebra de contrato do gasoduto “Nord-Stream-2”, no curto prazo aparenta fazer sentido, contribuindo para a diminuição da dependência energética frente à Rússia. Mas essa situação, no longo prazo, não passa a ser animadora, pois, igualmente, mantém a Europa ainda super-dependente do gás americano, um gás mais caro.

No circuito das economias emergentes, essas sanções parecem simplesmente ter ecoado pelas chancelarias. Nesse sentido, a China demonstrou apoio veemente e incondicional à Rússia, aproximando definitivamente as duas potências, abrindo-se então canais de negócios que podem compensar para a Rússia as perdas originadas pelas sanções ocidentais, tendência de não adesão que foi seguida por quase todas as grandes economias emergentes, tais como México, Brasil, Israel, Turquia, Àfrica do Sul, Paquistão e Índia. Quase uma versão ampliada dos BRICS, um belo tijolo jogado nas antes plácidas águas ocidentais, uma vez que a somatória das economias deste bloco não alinhado já supera a somatória das economias ocidentais de alta renda.

Resta também a dúvida sobre se as declarações atuais de aderência vão durar na missão, passados meses após o calor do momento da invasão. Tal questionamento tem sentido em função do tamanho das grandes economias emergentes. Já a questão da isenção do fornecimento do gás, deixado de fora das sanções, a única questão realmente relevante para os negócios internacionais da Rússia, também agrega um tom de descrédito às iniciativas. Fatores complementares como a compensação de novos canais de negócios surgidas de grandes economias não aderentes, especialmente China e Índia, bem como a “normalização” do enfrentamento de sanções por parte da Rússia ao longo da última década, agregam ainda mais questionamentos sobre a efetividade das sanções como uma resposta autêntica ao ato de insubordinação russo. Sem mencionar o fator mais significativo de todos que é a escolha das sanções como único ato de retaliação, em detrimento de qualquer outra, mínima que seja, iniciativa militar concreta. Confirmando o adágio diplomático de que declarar a adoção de sanções, significa no jargão geopolítico a uma declaração de renúncia de ações militares concretas.

Mas, mais significativo do que o debate sobre a eficácia ou não das sanções econômicas, da renúncia do Ocidente a qualquer ato concreto de retaliação, é a análise dos efeitos autodestrutivos das ações econômicas punitivas promovidas pelo Ocidente. Ações que tem um certo tom de tragédia grega, no sentido que as ações para combater uma catástrofe anunciada acaba por acelerar ainda mais o desenrolar da trama naquela direção. Quanto mais se luta para se afastar do destino previsto, mais se contribui para a sua concretização. Situações trágicas onde uma ameaça antevista acaba sendo viabilizada na ânsia de combatê-la, como um Édipo imediatista que luta ansiosamente para evitar que a ameaça ou profecia se concretize, para escapar do seu destino, mas, nessa luta, acaba provocando ainda mais rapidamente, acaba acelerando todo o processo, encontrando a morte à espera numa encruzilhada de Samara.

Veja-se por exemplo, as iniciativas generalizadas nos EUA e na Europa de confiscar as reservas internacionais do banco central russo depositadas em instituições ocidentais, além do congelamento de investimentos russos em bônus do tesouro americano, num calote seletivo, além da proibição de negociação de bônus do tesouro russo nos mercados financeiros dos EUA, todas ações com a intenção imediatista de desestabilizar o rublo, asfixiar o financiamento fiscal e gerar instabilidade econômica e política dentro da Rússia, minando a sustentabilidade política doméstica de Vladimir Putin.
Se a efetividade dessas medidas ainda é uma questão em aberto, a possibilidade de que isso venha a minar em vez da sustentabilidade de Putin, mas sim a credibilidade do sistema financeiro Ocidental, parece bem maior. Isso porque pode estar se transmitindo mensagens claras para todos os atores da economia internacional, públicos e privados, de que esse confisco direcionado hoje realizado contra a Rússia poderá, amanhã, ser direcionado contra qualquer governo ou empresa que não se alinhe a “interesses vitais” americanos ou europeus.

Trata-se de uma situação nova, quase inédita, na história moderna, e uma situação de clara deterioração do clima de confiança, que é o cerne de todo o sistema financeiro e monetário internacional. No auge da guerra fria e do macarthismo anticomunista, o mercado bancário londrino, a City de Londres, inovou nos anos 1950 ao permitir que a União Soviética fizesse depósitos e operasse financeiramente em dólares americanos, oriundos dos pagamentos internacionais recebidos pelas exportações russas. Essas operações em moeda estrangeira em bancos ingleses inaugurou o conceito, apelidado de “eurodólar”, e foi expandido para outros clientes. Ao mesmo tempo, a complexa tarefa de construir uma moeda internacional, ou meios de pagamentos internacionais, seja na época em que o valor das moedas locais era referenciado por reservas em ouro físico (até 1971), seja na época em que esse valor era referenciado por depósitos internacionais efetuados pelos diversos bancos centrais nacionais em dólar americano (após 1976), a pedra de sustentação de todo sistema era a confiança dos diversos bancos centrais nacionais de que suas reservas internacionais nunca seria confiscada. Ou seja, sem confiança, sem sistema. Ou seja, o fato significativo desse sistema é exatamente a sinalização para todos os atores da economia internacional de que, apesar das diferenças políticas e ideológicas, a boa normalidade dos negócios não seria ameaçada, permitindo até que ativos internacionais do grande rival geopolítico permanecesse sacrossantamente salvaguardado às partes das querelas políticas. Práticas muito semelhantes no âmbito privado consagraram a credibilidade dos bancos suíços junto a todo tipo de atores, uma vez que, ao longo de todos os conflitos europeus, e até mesmo durante uma radicalizada Segunda Guerra Mundial, essa praça bancária deixou os ativos de todas as partes beligerantes tranquilamente repousando lado a lado nas prateleiras dos cofres helvéticos.

Justamente, essa mensagem de credibilidade, de confiança e de segurança talvez tenha sido o fator mais determinante para a consolidação de um “sistema”, conjunto confiável de regras e instituições, estimulando o crescimento de uma economia internacional, ampliando os negócios para o desconhecido, para fora das fronteiras domésticas, um ambiente novo naquele momento, mas ali pautado por instituições financeiras e monetárias confiáveis e estáveis.

A radicalização anti-russa do momento atual, com tons de histeria, imediatismo cego e algum desespero, contaminada por outras radicalizações domésticas oriundas da política eleitoral, parece ter sido o fator determinante para a geração desta surpreendente situação de quebra de confiança, que pode comprometer dinâmicas mais estruturais, de longo prazo, como um sistema internacional sustentado pelo Ocidente, desconfiança que poderá eventualmente gerar, por exemplo, uma corrida para fora do dólar, e das instituições financeiras ocidentais, situações tem a capacidade de escalar abruptamente, pelo efeito de manada, podendo até gerar situações de ruptura estrutural.

Outras medidas punitivas complementares, como a exclusão de bancos comerciais russos do sistema SWIFT, um sistema de comunicação interbancária de pagamentos internacionais, parecem repetir a mesma tendência, de punição russa no curto prazo gerando desdobramentos estruturais negativos para os sistemas institucionais capitaneados pelo próprio Ocidente. Imediatamente após o banimento da Rússia do sistema SWIFT, os bancos russos foram imediatamente absorvidos pelo sistema chinês UnionPay, agora crescente e fortalecido pela presença dos negócios russos e de seus clientes.

Todos esses novos arranjos financeiros e monetários, desenvolvidos sob a sombra da liderança chinesa, viabilizando esquemas alternativos de reconstrução de confiança, da segurança de ativos, da liquidez de pagamentos, do recebimento de pagamentos em outras moedas além do dólar americano e do euro, seguramente representarão, em alguma medida, um impulso para a “desdolarização” da economia internacional, de “libertação da dependência do dólar” pelas economias emergentes, que assim estariam mais protegidas dos caprichos arbitrários dos governos americanos, tendência advogada explícita e repetidamente pelo chanceler Lavarov.

O prazo para o encerramento desse ciclo imperial Ocidental, claro, ainda é um debato aberto para especulações, mas o que parece certo é que diminui o espaço para uma liderança unilateral e incontestada por parte dos EUA sobre uma economia globalizada. Esta globalização ocidental de caráter neoliberal seguramente está perdendo nesse momento importantes mecanismos institucionais e políticos para o exercício efetivo de uma liderança hegemônica, como a quebra de confiança de um sistema bancário, financeiro, monetário e comercial, podendo até dar espaço para um outro tipo de globalização. Um outro tipo de interdependência mundial marcada por circuitos mais orientados para as economias emergentes, posto que garantidos por elas, e animado por uma espécie de capitalismo industrial de Estado. O que, no plano geopolítico, poderia dar margem para uma espécie de multilateralismo eurasiático, sob a liderança de China, Rússia e Índia, mas com uma participação próxima de economias como o México, Brasil, Argentina, Irã, Indonésia, Malásia ou África do Sul, em coalizões multipolares.

O cancelamento unilateral de atividades por parte de empresas privadas ocidentais na Rússia, pressionadas pelo clima de histeria na opinião pública, podem ampliar a tendência já em curso desde Trump e do Brexit, de “encurtamento” das cadeias produtivas internacionais, tornando-as cada vez mais concentradas em espaços domésticos geopoliticamente confiáveis. Enquanto, elas podem continuar contando com as vantagens comparativas amplas e variadas, ao permanecer ainda estendidas nesse espaço euroasiático ampliado.

Tal tendência de mútua desconfiança e de fechamento do Ocidente sobre si mesmo, pode paradoxalmente provocar um movimento de isolacionismo Ocidental, uma vez que, a rigor, essa tendência já existia. Não deixa de ser curioso que, se Trump havia se celebrizado por demonizar a China, e adotar políticas nessa direção, a nova gestão democrata tem se superado num projeto bastante semelhante, agora demonizando a Rússia. Um projeto de Estado de isolamento americano dentro de uma ampla unidade, mas já menor do que o poderoso bloco eurasiático em firme passo de consolidação. Processo no qual, a formalização da coalização dos BRICS já teria sido um ensaio dessa ordem emergente. A desafiadora invasão russa na Ucrânia, nesse sentido, poderia ser entendida como uma caminhada na direção de um BRICS com contornos militares. De fato, uma transformação estrutural.

(março de 2022)

Perspectivas geopolíticas a partir do conflito na Ucrânia


 (Fernando Padovani)

Toda a movimentação prévia da Otan na direção do leste europeu, se aproximando suas estruturas militares das fronteiras russas, cada vez mais parece ter sido resultado de um consenso de uma época marcado por um extremo otimismo. Otimismo momentâneo sobre a incapacidade russa de reagir a esta ameaça, a este avanço estratégico-militar ou, de outro modo, sobre o pleno e inquestionável poderio Ocidental de reformatar a geopolítica nesta Europa oriental. O mesmo entusiasmo que levou a Otan ao Afeganistão, Iraque e Síria, renovando a justeza das intervenções repetidamente ao longo de 20 anos, até a sua falência e desistência final.
     Este entusiasmo momentâneo seguramente foi inspirado pela situação de momento da fragilidade russa, chinesa, indiana e de todos os países emergentes, em processo de reconstrução. Entretanto, essa situação do mundo fora do G-7 mudou radicalmente ao longo dos últimos 20 anos, de maneira lenta e incremental, até o momento onde subitamente se percebeu que a correlação de forças havia mudado, se enviesado na direção das economias emergentes. A crise militar na Ucrânia em março de 2022 e, sobretudo, o colapso da ocupação militar americana no Afeganistão, em julho de 2021, nesse contexto, se revelam como algo muito mais significativo que uma guerra local.
     A tentativa Ocidental de combater o avanço dos tanques russos com sanções econômicas, por mais daninhas que elas possam ser, são um exemplo claro da incapacidade Ocidental de combater este movimento de novo equilíbrio com instrumentos de poder efetivos, um indicador do esgotamento momentâneo do Ocidente de bancar ações de manutenção da sua Ordem.
      Em primeiro lugar, pela clássica ideia de que brandir verbalmente sanções econômicas difusas significam no tabuleiro geopolítico apenas uma declaração disfarçada de renúncia de intervenção militar direta. Em segundo lugar, estas sanções, no caso atual da Rússia, significam muito mais a cessão de um espaço para China e outras grandes economias emergentes do que um banimento para lugar nenhum. Um certo etnocentrismo Ocidental entende que a decretação de sanções econômicas significa uma forma de banimento para fora do mundo, sem perceber que podem estar significando apenas um banimento para fora do cada vez mais restrito espaço econômico Ocidental, empurrando a Rússia para um outro circuito liderado pela China, e para um circuito que aliás se amplia com este movimento. Duas situações que apenas confirmariam a ineficácia de longo prazo da resposta Ocidental frente a este movimento de força da Rússia.
      O simples fato de a Rússia ter ousado esta invasão seria talvez o maior indicador deste encolhimento (e não, ainda, uma crise definitiva) do Ocidente. Talvez tenha sido o mais importante e ousado ato geopolítico de independência nos últimos 30 anos, e evidenciou a incapacidade da ordem Ocidental de conformar o sistema internacional como fazia até então. Nesse sentido, a decisão russa não pode ser pensada sem o momento na qual ela foi tomada. Como já foi dito, este momento não tem muito a ver com o recrudescimento da crise humanitária dentro do Dombass ucraniano, não tem a ver com o acúmulo de ameaças da Otan no “near abroad” russo, não tem a ver com o amadurecimento interno de um plano nostálgico russo de reconstrução da União Soviético ou do Império de Catarina a grande, mas sim teria a ver direta e intensamente com a consolidação da percepção, pela Rússia e pela plateia internacional, de fadiga imperial por parte dos EUA, a partir da retirada atabalhoada doas tropas americanas de Kabul, em julho de 2021.
     E ainda haveriam outros sinais adicionais de fragilidade da antiga ordem liberal ocidental, que têm se manifestado especialmente após a crise financeira global de 2008, elementos que apenas contribuiriam para que o Ocidente perca sua capacidade de fazer as grandes economia emergentes orbitar ao redor desta sua antiga ordem, como demonstram a baixa aderência às sanções por parte de todos os países fora do antigo G-7, ou ainda os sinais de desunião interna dentro da própria ordem ocidental, além de elementos como uma certa de fragilidade de liderança, como tem sido apontado aqui e ali a discussão sobre a baixa “qualidade das lideranças” ocidentais, o caos político no Ocidente, polarizações domésticas, como exemplificam as ferozes críticas internas sobre as ações de Joe Biden no cenário internacional, e ainda a recente crise ocidental das liberdades civis e direitos fundamentais, tais como o direito de liberdade de expressão, evidenciadas durantes a pandemia sugerem que a crise Ocidental ultrapassou as dimensões da competitividade, da sustentabilidade fiscal, e teria alcançado também o plano dos valores.
      A ânsia imediatista de promover punições contra a Rússia tem promovido uma onda de quebras de contratos em relação aos interesses e ativos externos russos. Este movimento arbitrário poderá ser o grande elemento de instabilidade de todo sistema econômico internacional liderados pelos EUA, baseados em princípios liberais, e no valor central da confiança. Uma eventual crise de confiança pode colocar em cheque as instituições regulatórias ocidentais, que foram exatamente construídas exatamente sobre o pressuposto fundamental da confiança. Curiosamente, se há um mês esperava-se no Ocidente que as sanções, como o confisco de reservas cambiais russas, fossem fazer desmoronar o rublo, a economia russa, e por extensão o governo de Putin, passados 30 dias, o rublo continua estável e as dúvidas começam a surgir sobre o futuro do dólar como meio de pagamento internacional, que em função das medidas retaliatórias, pois as instituições financeiras e monetárias começam a ser vítima de uma crise de confiança. No “front” doméstico, paradoxalmente, a opinião pública na Rússia tem aumentado consistentemente, expressando seu apoio à invasão militar e também ao próprio governo Putin.
      Até mesmo as ações unilaterais das grandes empresas ocidentais que aderiram voluntariamente às sanções russas, podem estar transmitindo um sinal para todas as economias emergentes de que elas não são apenas uma marca neutra, mas sim um instrumento de poder de Estado e de governos, e podem estimular o desenvolvimento de similares nacionais, de protecionismo, de substituição de importações.     
      Por outro lado, o debate sobre a “justiça” da invasão russa cada vez mais parece ser um debate desgastado, quase vazio. Em primeiro lugar pela presença imponente da realidade geopolítica. Nessa realidade, um Estado ameaçado e que venha a ter potência de ação, absoluta e relativa em relação aos seus rivais, deverá agir inevitavelmente com força militar. Em segundo lugar, em função dos escombros da “ordem internacional baseada em normas” deixados como legado pela dominação hegemônica e solitária dos EUA entre 2001 e 2021. Revertendo a tendência inicial dos anos 1990, onde o país aproveitou o desabamento da URSS e o erguimento da União Europeia para estimular os atores internacionais para a construção de uma ordem multilateral, partir do ensaio geral da intervenção militar no Kosovo em 1999 e alavancado pelo ataque de 11 de setembro, os EUA saiu a campo para demolir essa ordem baseada em regras a seu favor. Essa destruição, alertou potências emergentes sobre a crua falta de limites arbitrária da potência solitária, tornando todos em alvos possíveis e eventuais, mais também legou um rebaixamento significativo nos parâmetros legais capazes de moldar ações internacionais. A invasão russa na Ucrânia, uma crua e cruel invasão militar, se viabilizou justamente a partir da completa falta de parâmetros legais legados por duas décadas de ações americanas arbitrárias, uma intervenção militar que passou pela estrada da ilegalidade aberta cuidadosamente pelos EUA a partir de 2001.
      Mas seja qual for o entendimento jurídico-legal desta questão ucraniana, ela em nenhuma maneira anula o vital debate da questão através do viés geopolítico. Em primeiro lugar, na escala macro, a decisão no sentido da invasão muito provavelmente foi motivada pelo esgotamento imperial americano, tornado explícito com a total falta de disposição de reverter a retomada de Kabul pelas milícias talibã, culminando um programa de quase uma década de sistemática desengajamento dos conflitos no Oriente. Este pode ser entendido como o sinal mais significativa para a ousada operação russa. Ao mesmo tempo, as forças militares e políticas europeias já vinham emitindo sinais de críticas e desunião. A situação de recessão econômica pós-pandemia, com endividamento público elevado no Ocidente, contribui bastante para essa tendência geral de esgotamento do tal “ativismo” em matérias de política externa. Putin teria avaliado, aparentemente de forma correta, que a Otan não teria fôlego para reagir à iniciativa russa de recuperar o espaço estratégico perdido no leste europeu, especialmente no ponto crítico para a sua segurança, as planícies ucranianas.
      Em segundo lugar, no que se refere à escala micro, específica, à operação militar em si, a estratégia verificada no terreno sugere uma abordagem incremental, cuidadosa, no melhor estilo da chantagem militar racional, buscando concessões em negociações diplomáticas subsequentes. A invasão russa se procedeu com uma etapa prévia de bombardeios focados na defesa aérea da Ucrânia, seguida da entrada lenta e cuidadosa de tropas e dominação de vastas extensões de território, cercando mas evitando a invasão de grandes cidades, interrupção de canais internos de mobilidade militar, isolando tropas ucranianas, esgotamento cadeias de suprimento, promovendo ações em três “fronts” (sul, leste e norte), para evitar contra-ataques nas retaguardas, promovendo um lento abraço de gibóia. Ao mesmo tempo, procurou utilizar em solo ucraniano apenas 50 mil dos 200 mil homens mobilizados até as regiões de fronteiras, e da mesma forma não utilizando seus batalhões de elite, seus MIGs de última geração e seus tanques de última geração T-14, com baixo número de mortes de civis comparadas com os padrões de outras invasões americanas.
      Claro que a operação militar russa poderia ser melhor, mais curta e com menos perdas, mas, de modo geral, no frigir dos ovos, a operação tem se desdobrado de maneira muito efetiva para a Rússia, se considerarmos a extensão do território ocupado dentro da Ucrânia, e pela eficiência russa em zerar os efetivos defensivos ucranianos, que em linhas gerais, perdeu 75% de sua infraestrutura militar no primeiro mês de ações. As baixas ucranianas que começam a se contabilizar publicamente, parecem definitivas após 30 dias de combate, com algo em torno de 50 mil soldados mortos (25% do efetivo total), 1.600 tanques destruídos (2/3 do total), perda da metade das unidades de artilharia (750 unidades), e 75% de toda a aviação militar (120 aviões), e cerca de 80% das defesas aéreas. A tal ponto que, a esta altura, após 30 dias de operações, parece já impossível que o exército ucraniano reverta minimamente as conquistas russas já consolidadas. O “timing” para a negociação parece ter chegado.
      Entretanto, trata-se de uma guerra bem russa, ou seja, suja, pesada, destrutiva, cheia de perdas, com uso pesado de artilharia, focada na inviabilização do espaço aéreo local para inimigos, sejam locais ou eventualmente de países vizinhos, isolando assim os campos de batalha de ataques aéreos. Tal abordagem, além de russa também é coerente com uma autocracia militarizada, onde o peso da opinião pública não é um fator determinante como critério de sucesso.
(março de 2022)

Crise no Ocidente neoliberal

 (Fernando Padovani)

      A ordem ocidental neoliberal que se consolida após 1991 está impregnada pelo otimismo das relações de mercado sem fronteiras, um otimismo planetário, e foi pesadamente influenciada pela experiência da queda do muro de Berlin, ou do fim das experiências de socialismo de Estado. Coincidentemente (ou não) ampliada pela introdução da internet na vida cotidiana em 1992, o sentimento de queda de fronteiras de limites, vivenciadas pela abertura de mercados, pela multiplicação dos fluxos de mercadorias, de capitais, de pessoas, mas, sobretudo, de informação, o que fundamenta essa experiência.

     No plano cultural, essa ordem neoliberal, agora de traço ou aspirações muito internacionalista, muito transnacionalista ou, “globalista”, passa a ser marcada por tendências semelhantes, marcadas também por essa repentina ampliação de horizontes. Os traços culturais dessa época passam a cultuar um sentimento cosmopolita, uma arquitetura de fusões pós-modernas, de “não-lugares”, de expressões culturais como música ou “fashion” marcadas pelos fusão de estilos multiculturais, de desconstrução de identidades livres de localismos, de instituições, de tradições, de heranças, de definições rígidas. De certa maneira, aprofundam as tendências “pós-modernas” já ensaiadas e identificadas na década anterior, que caracterizam uma ampla e longa reelaboração da Modernidade.

     A expressão política desse sentimento de desconstrução das identidades modernas a partir dos anos 1990 foram movimentos igualitários e pluralísticos, novos movimentos de liberação com novas reivindicações, que foram incluídas da agenda da chamada “nova esquerda”, tais como, especialmente, os movimentos de desconstrução de gênero, e também, subsidiariamente, novos movimentos de resgate das questões de igualdade de gênero, de raça e de minorias culturais. Os movimentos de combate à identidade de gênero tradicional lideraram esta rebelião pós-moderna por ter sido a principal área de “normatividade” herdada do mundo da Modernidade, enquanto as outras reivindicações igualitárias, já abordadas nos anos 1960, como feminismo e movimento negro, foram revisitadas e revitalizadas, em função do sentimento de incômodo gerado pela factual fragmentação pós-moderna neoliberal, fragmentação econômica e sociológica. Estruturas tradicionais ainda resistentes da Modernidade, ou até anteriores, parecem ter se tornado disfuncionais, obstrutivas, não mais palatáveis nessa nova era, como o patriarcado, hierarquias, tradições, dominâncias, supremacias e privilégios. Em algum lugar desse espectro também se encaixam a já longa emergência de movimentos similares ao da “velha esquerda”, de contestação do sistema capitalista, mas, na virada de século “ajour-nados” como defesa do meio-ambiente.

     Como NÃO era de se esperar, esses novos movimentos de desconstrução, parecem ser a fonte das reações culturais, de “guerras culturais” entre as novas militâncias e os de novos tradicionalismos, neoconservadorismo. Uma guerra cultural marcada pela intolerância, pois as posições emergem num momento de elevado contraste, do contato de valores muito diferentes, e de difícil negociação e assimilação. A inclusão de políticas de governo nessa variável, agregando ações concretas redistributivas em favor de qualquer uma das visões de mundo, bem como a descentralização das mídias de comunicação, com a multiplicação da comunicação e da formação da opinião pública através de plataformas sociais, que amplificam e otimizam a mobilização, sem dúvida tem tido o efeito de multiplicar a polarização e a radicalização destas guerras identitárias de uma pós-modernidade globalizada marcada essencialmente pela desconstrução social e econômica das identidades da Modernidade.

      O curioso é que essa ordem neoliberal cosmopolita, chamada por alguns de “globalismo”, entrou em questionamento após a crise financeira mundial de 2008, mas também pela perda de sustentabilidade da política externa imperial dos EUA, política esta que de alguma maneira emprestava sustentabilidade política para a ordem político e institucional no senso estrito. O atual esgotamento do intervencionismo americano, que fora iniciado a partir do final dos anos 1990, e amplificado a partir do 11 de setembro de 2001, começaria a se manifestar a partir das recessões de 2008/11, quando se evidenciaram as disfuncionalidades domésticas já instaladas, como atraso das infraestruturas, perda de competitividade, problemas de coesão social, bem no estilo da hipótese do “imperial over-strecht”. Estes temas, que tem sido pontos centrais recorrentes nas campanhas eleitorais tanto de candidatos democratas como republicanos, podem estra na base das decisões do movimento contemporâneo de “encolhimento” americano na cena internacional, como demonstram as retiradas de tropas do Iraque, do abandono apressado do Afeganistão, da terceirização da condução do conflito na Síria para a Rússia e, finalmente, para o imobilismo frente à invasão russa na Ucrânia.

      A crise sanitária gerada pela pandemia do vírus corona em 2020, e o tipo das políticas públicas adotas nas tradicionais economias ocidentais, podem ser um sintoma dessa mudança de percepção sobre a realidade política no Ocidente. Como uma ressaca de duas décadas de políticas neoliberais no Ocidente, com uma percepção de fracasso disseminada a partir de 2008. Uma percepção de fracasso expressa pelas agendas políticas tanto dos movimentos de esquerda como dos movimentos conservadores, ambos a partir de então defendendo pautas nacionalistas e protecionistas. Complementarmente, evidenciou-se o contraste do sucesso relativo das grandes economias emergentes, que passaram a ser coletiva mais ricas que o Ocidente, e mais promissoras, em função das taxas de crescimento, as democracias ocidentais parecem ter adotado a receita de sucesso destas novas economias emergentes, especialmente a China, mas também os BRICS, com suas histórias de sucesso apoiadas sobre uma espécie de “capitalismo de Estado”, economias de mercado conduzidas por “centralismo democrático”, com políticas públicas fortemente presentes na condução das decisões coletivas. O centralismo democrático acabou por colonizar as democracias liberais, a partir de efeito demonstração do sucesso de vigorosas políticas estatais na condução de sociedades em estado de profundo questionamento, e de medo diante das novas incertezas vindas de horizontes distantes, demasiadamente abertos, desprotegidos.

      Nesse contexto que a eclosão da pandemia em 2020 oferece uma oportunidade para que um novo consenso fosse expressado no Ocidente. Uma redescoberta de políticas estatais mais pesadas, mais intervencionistas, de mecanismos de controle, da dimensão policialesca do estado, de redução das liberdades fundamentais, entre outras.

     Toda uma evolução que deixa a sociedade Ocidental numa encruzilhada, num final de ciclo onde os caminhos à frente não são nada claros. Em primeiro lugar a aceleração neoliberal dos anos 1990 deixou como um dos legados uma crise cultural, uma crise no plano das identidades. Crise das tradicionais identidades pessoais, identidades comunitárias, identidades coletivas, identidades nacionais. Foi um período de grande crescimento econômico, de ampliação das relações de mercado nas relações locais, e uma ampliação do mercado por coma das fronteiras, tão comumente chamada de “globalização”. Essa aceleração da disseminação de relações de mercado e esse sentimento de cancelamento de fronteiras criou, em uma mão, uma disfuncionalidade de várias estruturas sociais do século 20 e, em outra mão, esvaziou o sentido das próprias fronteiras, das delimitações, não apenas entre países, mas entre instituições. Em segundo lugar, as crises identitárias geram crises políticas, criando sérios obstáculos para a construção de consensos coletivos, dificultando sobremaneira a mobilização de amplas maiorias na direção de prioridades, na direção da ação, para a construção de políticas públicas minimamente sustentáveis, sejam elas quais forem. Em terceiro lugar, as políticas entre 1991/2008 deixaram como legado uma crise econômica, marcada por baixo crescimento, baixa competitividade e alto endividamento. E, por fim, um quarto elemento, esse final de ciclo culminou com um esgotamento da liderança mundial, o que tem deixado espaços vazios para a ocupação e para a construção de novos circuitos de liderança, bastante fortes e independentes dos interesses americanos e europeus, o que em nada contribui para a defesa dos interesses ocidentais. A ousada e desafiadora invasão russa na Ucrânia seria uma expressão desse encolhimento ocidental e, paradoxalmente, a reação limitada baseada em sanções, tem apenas contribuído para reafirmar mecanismos e circuitos econômico-financeiros alternativos para aqueles construídos e liderados pelo Ocidente desde o pós-guerra. 

(abril de 2022)