terça-feira, 19 de maio de 2009

OMC e Rodada Doha segundo as visões liberal, realista e estruturalista

Com a grande crise mundial é muito importante que os países de primeiro mundo e os países em desenvolvimento se unam para formular estratégias de ação conjunta para definir os próximos passos a serem tomados diante da crise e da ameaça de recessão, pois, de acordo com os tradicionais pressupostos liberais, a cooperação tenderá sempre a propiciar maiores benefícios do que o isolamento e o protecionismo.

A OMC é uma instituição que pode servir como base de sustentação através da construção de um regime de regras para definir graus de cooperação entre os países no comércio mundial. O pensamento liberal acredita que as instituições internacionais podem acelerar a cooperação entre os Estados, pois são baseadas em um sistema de normas estáveis promovendo estabilidade e previsibilidade.
Na visão liberal, os países tendem a cooperar através de interesses comuns e, organizações como a OMC, podem contribuir através de suas dinâmicas de comércio. A OMC iria então, contribuir para o bom andamento da coordenação entre os interesses de cada país. Com a maior interação entre os Estados, e a manutenção do fluxo de comercio, o protecionismo poderá ser combatido, pois, espera-se, cooperação gera riqueza e riqueza gera paz.
A Rodada Doha, na visão liberal, tende a funcionar bem, pois o sistema de compensação sustenta a cooperação e pela percepção deles os benefícios coletivos são um ponto favorável para o bom andamento das negociações. O que se passa hoje na Rodada Doha é um grande impasse de interesses em relação a assuntos de interesse global, como, por exemplo, no setor agrícola. Cada país quer priorizar seus interesses e não permitindo a entrada de produtos que sejam mais baratos e que poderiam competir, em certos casos, até de maneira desleal com os produtos nacionais.
O Brasil é um grande interessado que as negociações da Rodada Doha tenham bons resultados e que diminuam o protecionismo, pois temos uma grande força na área industrial mas também na área agrícola exportadora, com uma qualidade diferencial propiciada pelo clima tropical que é favorável a uma produção agrícola de grande diversidade.
Já para os realistas, a paz e a cooperação são possíveis somente em situações de equilíbrio de ordem e os estados são imediatistas, Para eles os países tendem a não cooperar em uma situação de grande crise mundial. O que vem acontecendo de primeiro momento no mundo é um fechamento imediato para a livre comercialização como forma de proteger contra a crise.
Para os realistas os Estados são os principais atores no cenário Internacional e as instituições servem como espaço de exercício de equilíbrio de poder e são mantidos enquanto houver patrocínio da vontade do mais forte. Então a OMC para os realistas não teria nenhuma influência sobre a decisão dos estados em relação às práticas de comercio. Ela seria somente usada como beneficio em termos de aumento de poder de algum país, a não ser que o estado estimule.
A Rodada Doha também na visão realista tende a fracassar, pois os Estados praticariam o protecionismo e as decisões são focadas no curto prazo tendo uma ação racional e imediatista. A única forma de dar certo seria pela “vontade política” das grandes potências para sustentar o multilateralismo em uma perspectiva de estabilidade hegemônica.
O estruturalismo analisa o meio internacional como ameaça, tendo em vista a contradição de interesses entre as economias centrais e as dependentes. Para eles a dinâmica de acumulação econômica determina uma estrutura de poder contracionista. Na OMC e na Rodada Doha os países que detêm o poder econômico tendem a determinar as posições de acordo com os estruturalistas.
Acredito que os países mais centrais terão maior peso na decisão porem as decisões não serão concentradas em um só país e sim por um acordo conjunto. Como a OMC visa otimizar as relações de acumulação, os estruturalistas acreditam no bom andamento das negociações, mas direcionadas pelos países centrais Cada teoria levanta pontos importantes para o bom funcionamento da OMC e acredito que apesar do forte protecionismo, esta instituição será muito importante para a recuperação da grande crise mundial, através da dinâmica de comercio.
(Nicole Guaraná Ferreira)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Os paradoxos, na crise, se mostram relevantes

Palavra do gestor:
Os paradoxos, na crise, se mostram relevantes
Alexandre E. Santo15/05/2009
Em períodos de crise severa, como a atual, uma série de teorias, mitos, dogmas e paradoxos são questionados e revisitados para embaralhar ainda mais a cabeça dos investidores, o que dificulta a vida do profissional que trabalha com aconselhamento financeiro. Nessas horas, quando muitos paradigmas são bombardeados quase que diariamente, é preciso separar o joio do trigo, ou seja, selecionar o que é para ser levado em conta, para não poluir a análise. O pior é que, nas grandes dificuldades, alguns apelam para a famosa "sensibilidade". Recordo-me de um antigo professor que dizia que o único sujeito que ganhou dinheiro com "feelings" foi o Morris Albert, autor da canção que levava esse nome.
Aqui mesmo, nesta coluna, vários colegas discutiram alguns desses tópicos como a importância das empresas pagarem bons dividendos, mitos sobre governança corporativa, entre outros assuntos. Pretendo contribuir com um aspecto que tem a ver com o recente rali da bolsa.
No estudo da macroeconomia, salientam-se alguns famosos paradoxos. Um dos mais conhecidos é o da poupança, que ensina que quando ela está em processo de formação, a economia se ressente, pois é como se houvesse um vazamento de recursos (um agente econômico guardando dinheiro implica que ele consumirá menos, o que gerará menos riqueza). A despeito de não podermos afirmar que é a formação de poupança a responsável pela criação dos investimentos, empiricamente o que se observa é que os países com alto grau de crescimento possuem elevado nível de poupança em relação ao PIB. Assim, podemos inferir que, num período de revés econômico, tal paradoxo ganhe relevância.
Outro ponto que merece destaque, em especial neste momento, diz respeito à discussão sobre a baixa eficácia da política monetária no longo prazo - o paradoxo de Gibson. De forma simples, pode ser assim explicado: a emissão monetária/redução dos juros em magnitude importante provocará mais investimentos produtivos e expansão da renda por meio do efeito-liquidez. Assim sendo, no curto prazo, a política monetária seria eficiente. No longo prazo, contudo, o aumento da renda provocará um aumento de consumo e na demanda por crédito, o que muito provavelmente pressionará as taxas de juros reais. Adicione-se a este efeito-renda um aumento das expectativas inflacionárias, o que obrigará o Banco Central a elevar os juros nominais, contraindo a demanda agregada. Daí o efeito paradoxal.
Em minha visão, as posturas adotadas pelos principais bancos centrais - reduzindo drasticamente as taxas de juros nos últimos meses - estão provocando um brutal efeito-liquidez, com impactos significativos sobre os sistemas financeiros e os ativos negociados. Lembremo-nos que nos últimos anos as bolsas de valores foram extremamente beneficiadas pela elevada liquidez internacional e até mesmo por operações de "carry-trade". A meu ver, esse é o principal fator para o recente rali dos mercados acionários. Mas por quê? Qual a diferença de agora?
A importante diferença é que, no passado, os "valuations" referendavam a alta das ações, ou seja, o chamado fundamento era um aliado de primeira ordem. Comprava-se não somente por uma questão de alocação de portfólio, de não ter o que fazer com o dinheiro pelos juros reais serem baixíssimos, mas, sim, porque os lucros e a geração de caixa eram crescentes e corroboravam o investimento. Agora não mais! Fiz um estudo com as estimativas de lucros projetados das principais casas de análise do mercado e a média encontrada para 2009 sinaliza uma redução de 17% nos lucros das empresas brasileiras. Algumas, como a Vale, podem perder o dobro dessa média.
Os dois paradoxos acima citados podem estar se entrelaçando, o que é perigoso. Essa crise não é trivial, como a da década de 1980, por exemplo. Naquela época, a redução das taxas de juros podia elevar o nível de renda, uma vez que o endividamento privado americano era perto de 100% do PIB. Agora, como essa relação é quase o triplo, os agentes econômicos endividados poderão se aproveitar de juros menores para reduzir suas dívidas abissais (paradoxo da poupança). Ademais, com o excesso de liquidez se juntando aos enormes gastos públicos, poderemos observar, num período de tempo mais curto do que se supõe, os juros se elevando.
Neste momento, me parece que há muito "achismo" em relação à bolsa pouquíssimo fundamentado. Faz-me recordar uma entrevista folclórica de um jogador após a partida. Perguntado pelo repórter o que ele havia achado, ele respondeu: "Eu não achei nada, mas o goleiro achou um crucifixo na grande área. Qualquer hora acho alguma coisa..."
Alexandre Espirito Santo é diretor do Curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ e economista da Way Investimentos
E-mail aesanto@wayinves timentos.com.br

Prof. Alexandre Espirito Santo
Diretor Acadêmico do curso de RI