terça-feira, 7 de abril de 2009

E agora, quem poderá nos salvar?

Em tempos de crise mundial, é certo que as primeiras medidas adotadas pelos países em geral, são de ordem protecionista, como já o estão fazendo. A pergunta que o mundo inteiro se faz neste momento é: como sanar a crise que, por muitos analistas e economistas, é considerada a pior crise desde o "crash" da bolsa de Nova Iorque em 1929 e assim, evitar uma recessão mundial e os efeitos tenebrosos do protecionismo adotado e da falta de um comércio amplo e diversificado entre os países ?

Se formos analisar e buscar esta resposta através das visões das tradicionais escolas das Relações Internacionais, levando-se em conta que a crise tem origem nos países comandados pelos “loiros de olhos azuis” (muito embora este nem mais seja o caso dos EUA), a solução deveria partir e ser imposta por um país desenvolvido, como diriam os Realistas. Se Estados são formados e comandados por indivíduos, e esses indivíduos são individualistas por natureza (com o perdão do trocadilho), tensões e situações de conflito de diversas ordens tendem a ocorrer todo o tempo e disputas, e mesmo guerras, são sempre iminentes, dentro da lógica de que um navio com dois comandantes não funciona. Ou seja, o sistema demanda lideranças.

Por outro lado, nas situações de conflito, como as guerras, não existem vencedores, apenas graus variados de perda, diriam os liberais. Diriam ainda que cooperação gera confiança. Confiança essa que, é justamente, a causadora da crise atual (no caso, a falta dela). A solução então deveria ser a cooperação e o comércio entre os países. A velha fórmula da economia de que gastar dinheiro faz a roda girar, gerando mais dinheiro. O problema é: se todos começam adotando medidas protecionistas, quem será o primeiro a “dar a cara a tapa”, abrir seus mercados e girar a roda da economia se não existe garantias de que os outros países farão a mesma coisa? Ou então, quem seria o país com poder suficiente para tomar a frente no processo de ditar as novas ordens econômicas, como fez os EUA no pós 2ª Guerra Mundial? Seriam os próprios EUA, com tantas instituições que, outrora eram consolidadas, milionárias e simbolizavam o poder americano como GM, AIG Seguradora e bancos como o Lehman Brothers, e agora estão todos falidos e urrando desesperadamente por dinheiro público?

Uma coisa parece certo: a solução deve partir de esforços multilaterais. E como toda crise pode vir a ser uma oportunidade, esta é uma boa hora para revermos e melhorarmos nossas relações no Mercosul e buscarmos (Brasil) uma posição de maior destaque e relevância no cenário internacional que, de fato merecemos e inclusive já vem crescendo nos últimos anos. Afinal de contas, além do aumento da participação brasileira no novo FMI através de empréstimos que o governo brasileiro fará (o que chega a ser “chique”, na visão do nosso presidente), galgamos também uma vaga no conselho de segurança, etc.

Deixando o bairrismo de lado, o momento é de rezarmos e torcermos para um bom entendimento entre os países, culminando em soluções conjuntas e ganhos também.

João Gabriel C. Maia

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Tradição e Análise Histórica

Tradição e Análise Histórica


A análise histórica se movimenta em duas direções. Na primeira, procura identificar no sistema internacional os condicionamentos externos que fazem com que a política externa brasileira passe a querer entender como o Estado nacional pode se inserir no “sistema mundo”. Na segunda direção, procura atender a interesses nacionais nem sempre convergentes, seja do próprio Estado e/ou do projeto expansivo e econômico do País e de grupos cujos interesses econômicos requerem a intermediação da política externa.
Durante o século XIX, “século inglês, do padrão ouro”, na América Latina a Inglaterra consolidou suas zonas de influência e soube habilmente construir a diplomacia por serviço para atingir seus objetivos, como no caso brasileiro. É de nossa tradição a separação dos assuntos relacionais, ou seja, ligados aos interesses do Estado, em prol de seu reconhecimento e de defesa de seu território, no jargão das Relações Internacionais, à expansão pelas armas, e o mundo dos negócios, no nosso caso, principalmente às questões relacionadas ao comércio e às necessidades de financiamento. Coube a José Bonifácio de Andrada e Silva, a primeira gestão da pasta de Negócios Estrangeiros.
No início do século XX, diferente de outros países da América do Sul, inclusive da Argentina, que surgia como promessa de “hegemonia” no continente sul americano, o Brasil logo percebeu haver uma mudança no eixo de poder, pois o fluxo de migrantes e de comércio para os EUA sinalizava sua expansão. A influência dos EUA no concerto internacional já era transformadora e isto levou Rio Branco a ver a Doutrina Monroe não apenas como um projeto de não envolvimento da América nas questões conflituosas da Europa, mas como uma doutrina que pregava a defesa do continente da vontade expansiva dos Estados nacionais europeus. Não por acaso, a política externa conduzida por Rio Branco entendeu que a embaixada em Washington era essencial para redefinição do projeto brasileiro, ainda direcionado para a resolução das questões lindeiras, ou seja, para a resolução das questões de fronteiras e de consolidação de seu território na América do Sul. É bom lembrar, ainda que pareça distante, que em 1902, como era costume, a Inglaterra cobrou dívidas da Venezuela utilizando suas forças armadas.
Seguindo a leitura feita por alguns pesquisadores, podemos dizer que a tradição da política externa brasileira guiou-se pelo princípio da não intervenção, mas que se baseava numa avaliação realista do sistema internacional. Sua proposta de ação constituía-se em uma versão “eminentemente brasileira”, coerente com os interesses nacionais, mas que sempre manteve a idéia de reafirmar sua soberania, a necessidade de coesão interna e, internacionalmente, o uso de estratégias maleáveis. Internamente, apesar de a política externa ocupar espaço no debate político, mostrando nem sempre haver consenso, a análise em círculo fechado foi o recurso utilizado para a centralização das decisões.
Com Rio Branco como Chanceler, Joaquim Nabuco foi o 1º. Embaixador brasileiro em Washington, e esta gestão foi essencial para reconhecer “o poder de polícia” que os EUA se propunham exercer e para que o Brasil entendesse que dali se expandia um novo subsistema internacional de poder. A visão realista da gestão de Rio Branco permitiu perceber o peso dos EUA na nova distribuição do poder mundial e o fato de que a América Latina passava a se constituir em sua área de influência e não mais como um subsistema europeu.

Gloria Moraes – março/2009