domingo, 26 de abril de 2009

A verdadeira herança maldita


(Alexandre Espirito Santo)

Nos primeiros anos de mandato do governo Lula, não foram raras as ocasiões que ouvimos seus ministros defenestrarem a administração anterior, impondo culpa à gestão FHC por várias das mazelas que afetavam nosso país. 

Na expressão do presidente, seu governo havia recebido uma “herança maldita”. Quero crer que o queixume de Lula se encaixaria de forma perfeita (e mais apropriada) a esses 100 primeiros dias de presidência de Barack Obama. 

Listemos algumas das sombrias heranças que George W. Bush transmite a seu sucessor: 1) A pior crise econômica em oito décadas; 2) Guerras no Iraque e Afeganistão; 3) A complexa situação frente ao Irã e Coréia do Sul (pertencentes ao eixo do mal de Bush); 4) Imbróglios na América Latina com Venezuela, Bolívia e Equador; 5) Recrudescimento das relações com a Rússia e 6) Leniência aos temas relacionados ao meio ambiente. Sem contar as já tradicionais tensões envolvendo Oriente Médio e Cuba. 

Sob o aspecto econômico, a crise atual já está sendo batizada pelos analistas como “A Grande Recessão”. Como é sabido, na década de 1930 vivemos o primeiro grande revés do sistema capitalista, que ficou conhecido nos livros de história como “A Grande Depressão”. Obama vem tentando, a todo custo, não deixar a economia americana reprisar aquele período nada auspicioso, implementando, nesses três meses, uma espécie de “New Deal”, repaginado para o contexto de um mundo globalizado. Mas a tarefa é hercúlea! Após vários anos de políticas neoliberais, referendadas pelo consenso de Washington, os países centrais estão promovendo uma forte guinada em suas ações macroeconômicas, aviando o receituário anti-recessivo Keynesiano, via aumento de gastos públicos; é o retorno ao famoso “Estado Empresário”. 

A crise financeira rapidamente atingiu a economia real, com graves conseqüências sobre o dia-a-dia da sociedade americana: Vive-se, hoje em dia, a maior taxa de desemprego (acima de 8%) desde a década de 80, quase 2,5 milhões de famílias perderam suas moradias, a erosão patrimonial supera os U$ 10 trilhões, além de o sistema financeiro encontrar-se em vias de insolvência. 

As fortes medidas fiscais promovidas pelo governo Obama, nestes três meses de governo, possuem duas frentes de atuação. A primeira busca restabelecer a confiança no setor bancário, através da criação dos chamados “fundos abutres”, que teriam a função de absorver os ativos “podres” (algo em torno de U$ 1 trilhão), dando liquidez aos mesmos, o que melhoraria a situação dos balanços dos bancos. Na outra ponta, as medidas focam no estímulo mais direto à atividade econômica, por meio de redução de impostos e gastos com infra-estrutura (pacote aprovado no Congresso envolvendo U$ 800 bilhões). 

Além disso, o Federal Reserve estabeleceu uma política monetária de juro zero e ingressou no “quantative easing”, uma tentativa de ludibriar a famosa “armadilha de liquidez” de Keynes. Será que todas estas ações já seriam suficientes ? 

Nas últimas semanas, as bolsas de valores apresentaram valorizações expressivas em todo o mundo, o que ensejaria que o pior pudesse estar no retrovisor. Infelizmente, não comungo com esta análise. Embora Obama venha apresentando um ótimo desempenho, sobretudo pela fenomenal guinada na política externa (vide os episódios da reunião do G-20 e na recente Reunião de Cúpula das Américas), temo que ainda haja uma série de dúvidas sobre a eficácia das medidas (sobretudo as que envolvem a solvência dos bancos), o que não referenda nenhuma espécie de otimismo, infelizmente. 

Alexandre Espírito Santo é Diretor Acadêmico do curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ e Economista da WAY investimentos. Publicado no JB em 26-abr-2009.

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