quinta-feira, 18 de junho de 2009

Palavra do Gestor

Palavra do Gestor:
Será que realmente estamos (quase) todos errados?
Alexandre E. Santo15/06/2009
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No mesmo dia em que este jornal publicou a reportagem "Pânico de alta faz bolsa disparar e aumenta o risco", um aluno me colocou em situação embaraçosa. Ele me indagou se eu permanecia projetando o Ibovespa aos 48 mil pontos para dezembro ou se havia me rendido às evidências. Afirmei que mantinha meu número, pois acreditava que os mercados estavam inebriados pela liquidez e, provavelmente, exagerando nos preços. De imediato, ele retrucou: "Mas professor, não existe aquele ditado que os mercados sempre estão certos?"
De fato, meu aluno está correto. Desde que comecei a operar bolsa, no início da década de 1980, que ouço esta máxima. Ela deriva das teorias de finanças clássicas, segunda as quais os investidores agem de forma racional. Sendo, pois, os mercados eficientes, suas informações estão disponíveis aos participantes, daí as cotações dos ativos se ajustarem com rapidez aos seus fundamentos. O problema é que, como alguns de meus colegas de coluna já discorreram neste espaço, cada vez mais os estudiosos voltam suas pesquisas para a área das finanças comportamentais. De forma resumida, é por meio dela que se determina a relevância das atitudes intempestivas do ser humano, que atua (em momentos de crise, especialmente) de forma emocional, sendo levado por paixões, tomados pelo pânico ou euforia. Em outras palavras, o fator psicológico exerce influência em nossas decisões de investimentos.
Desde o instante em que o Ibovespa ultrapassou a marca de 53 mil pontos e o dólar rompeu a barreira dos R$ 2 que a grande maioria dos economistas vem sugerindo aos investidores que se acautelem, pois ainda temos condições muito ruins no lado real das economias. Com efeito, os desempenhos extraordinários das ações ensejam que a mais importante crise global em oito décadas terá um comportamento em "V", ou seja, queda rápida e retorno rápido. Não me parece sensato, no entanto, apostar que os estragos profundos que esta crise vem causando, erodindo trilhões de dólares das famílias americanas, nocauteando ícones como GM e Lehman Brothers, possam ter desfecho tão imediato, a despeito dos pacotes fiscais e das políticas de juros (quase) zero promovidos nos países centrais.
O que estaria, então, concorrendo para essa onda de euforia que tomou conta das bolsas? Em minha visão, a partir do momento que o Fed positivou os testes de estresse realizados com os principais bancos americanos, a enorme liquidez deitada pelos bancos centrais, outrora empoçada pela crise de confiança, passou a inundar o sistema. Assim, como as taxas de juros reais estão negativas, toda essa dinheirama ficou órfã de bom rendimento, passando a buscar guarida em mercados mais promissores, caso, agora, dos emergentes. Ademais, com a melhora de alguns indicadores chineses, os preços das commodities se valorizaram.
Sendo assim, visto que os preços das ações e moedas desses países haviam sofrido brutal desvalorização no fim do ano passado, o retorno mais do que compensaria o risco. De fato, no caso brasileiro, à época da pontuação em 29 mil pontos do Ibovespa e do real a R$ 2,50, sugeri que os mercados estavam exacerbando no pessimismo, pois os fundamentos macroeconômicos do nosso país não referendavam preços tão debilitados. Ou seja, os mercados estavam errados (daí o ditado aludido não me parecer sempre adequado).
O que impressiona no presente é a tentativa de muitas autoridades de chamar os mercados para uma melhor reflexão, evitando que novas bolhas possam vir a ser formadas. Internamente, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, salientou, em mais de uma oportunidade, os exageros atuais. No exterior, a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, criticou a postura leniente dos bancos centrais, fato inédito para uma autoridade germânica. Certamente, o pito da primeira-ministra deve ser visto como um temor real de que essas políticas monetárias extremamente ousadas venham gerar mais à frente processos inflacionários significativos, já que os rombos fiscais são gigantescos.
Continuo acreditando que o Brasil está em boas condições para passar relativamente bem por essa crise, mas não somos a cereja do bolo. Apesar de os juros estarem em queda, temos um setor exportador que precisa de um real mais competitivo. Quanto aos investimentos, devemos evitar o chamado fator ancoragem (nível de preço anterior virá referência de retorno). Finalmente, se for para usar ditos populares, tem um que gosto bastante. "Mesmo um relógio parado dá a hora certa duas vezes ao dia". Ou seja, o eventualmente errado pode estar certo.
Alexandre Espirito Santo é diretor do curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ e economista da Way Investimentos
E-mail: aesanto@wayinves timentos.com.br
Prof. Alexandre Espirito Santo
Diretor Acadêmico do curso de RI

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Coreia do Norte Testes Nucleares

A segurança global versus a soberania estatal:
os testes nucleares da Coreia do Norte

Gian Carlos Ferreira
Os recentes acontecimentos na chamada ‘crise nuclear na Coreia do Norte’ trazem à tona o debate entre a soberania estatal e a segurança global. Em até certo ponto surpreendente uníssono, todos os países que se manifestaram condenaram oficialmente a realização dos testes nucleares norte-coreanos na semana passada, ainda que haja divergências sérias entre EUA e China, por exemplo, no tocante às sanções a serem aplicadas à Coreia do Norte. A imprensa internacional também condenou de forma unânime tais atos. Por outro lado, o porta-voz norte-coreano afirmou, após os últimos testes, que seu país tem o direito como Estado soberano, de conduzir mísseis e testes nucleares e violar protocolos internacionais.
Existe claramente um sentimento geral de que a proliferação de armas nucleares representa um sério risco à segurança global. Esse sentimento, aliás, foi a inspiração para a celebração do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNPN), aprovado pela Assembleia Geral da ONU em 12 de junho de 1968. O próprio preâmbulo do TNPN deixa claros os objetivos de sua celebração, quais sejam, a necessidade de empreender todos os esforços para evitar a proliferação de armas nucleares, a qual aumentaria consideravelmente o risco de uma guerra nuclear, e de tomar medidas para resguardar a segurança dos povos tendo em vista a potencial devastação que uma guerra nuclear traria a toda a humanidade.
Ironicamente, porém, o TNPN foi denunciado pela Coreia do Norte em 2003, de forma que esse país se juntou a Índia, Paquistão e Israel como os únicos países com tecnologia atômica que não são partes no referido documento. No entanto, é importante salientar que a própria construção do TNPN desrespeitou um dos princípios mais essenciais do Direito Internacional – a igualdade jurídica dos Estados – uma vez que consagrou o direito de que as cinco potências atômicas existentes à época de sua celebração (EUA, Rússia, China, França e Inglaterra) mantivessem seu arsenal militar. Sendo assim, consolidou uma desigualdade severa entre os países, agravada ainda pelo fato de que essas cinco potências são, coincidentemente, os membros permanentes (com direito de veto) no Conselho de Segurança da ONU, ao qual cabe votar e aprovar resoluções contra países que realizem testes nucleares proibidos.

Os argumentos da soberania estatal e do princípio da igualdade jurídica dos Estados serão certamente utilizados pelas autoridades norte-coreanas para fundamentar seu direito soberano de realizar testes militares nucleares e de desenvolver essa tecnologia. Por outro lado, os princípios que estão por trás do TNPN permanecem válidos e representam o interesse da maioria dos países membros da ONU – como se vê pela reação global contrária aos testes norte-coreanos, podendo ser contrapostos aos argumentos daquele país. Além disso, deve estar claro que a alegação de soberania estatal como fundamento para o desrespeito de normas internacionais é juridicamente reprovável.
Eventualmente, entretanto, como toda crise internacional, o assunto fugirá ao campo estritamente jurídico-legal e repousará no campo diplomático, onde interesses políticos, econômicos e comerciais, espera-se, possam acalmar os ânimos e levar os países a um acordo.