quinta-feira, 23 de abril de 2009

A vontade de potência: o Brasil presente na Sociedade das Nações

Depois de um período de enorme tensão no território europeu, teve início a I Guerra Mundial. Com o conflito, a posição inicial do Brasil, assim como a dos EUA, foi de completa neutralidade. Porém, com o avanço do conflito e com a agressão de vários navios alemães contra navios mercantes brasileiros, foi impossível manter-se à margem do conflito. O total de embarcações brasileiras atingidas pelos submarinos alemães foram quatro e o Brasil declarou estado de guerra contra a Alemanha, se tornando o único país da América do Sul a entrar na guerra.

A contribuição do Brasil na guerra não foi muito intensa, um pequeno contingente de homens e ajuda na parte de saúde. Primeiramente, foram enviados 13 oficiais aviadores que, depois de treinados, fizeram parte da RAF. Depois, foram enviados 100 médicos cirurgiões à França e estudantes e soldados para trabalharem no Hospital do Brasil. Por último, a contribuição considerada mais expressiva, foi a formação da Divisão Nacional em Operações de Guerra, composta por seis cruzadores, que saiu do Nordeste brasileiro em direção à costa africana. Lá se uniu à força naval inglesa, porém, logo após sua chegada em Dakar, parte da tripulação apresentou o vírus da doença chamada influenza (gripe espanhola) que dizimou grande parte do contingente enviado. Com isso, houve um atraso na sua chegada em Gibraltar, sendo que esta se deu no dia anterior à assinatura do armistício que finalizou a I Guerra.

Embora com esta participação modesta do Brasil na I Guerra Mundial, o fato de ter declarado estado de guerra e de ter enviado contingente, teve papel muito importante no futuro das suas relações exteriores, pois assegurou, assim, seu assento na Conferência de Paz, participando também da organização da Liga ou Sociedade das Nações; O Brasil colaborou ativamente como membro eleito no seu Conselho.

A Sociedade das Nações foi um arranjo entre as potências vencedoras da guerra com o intuito de negociar um acordo de paz, como se o velho ”equilíbrio europeu” pudesse ser retomado depois da derrota da Alemanha. Esse encontro ocorreu na cidade de Versalhes, onde meses mais tarde foi assinado o Tratado de Versalhes, por 44 Estados. Logo após, a Alemanha retomaria sua vocação expansiva e, com o crescimento do nazismo e com a ascenção de Adolf Hitler ao poder, logo o mundo se veria emvolvido em nova disputa, com a deflagração da II Guerra Mundial, em 1939. O que se viu é que a Liga das Nações havia fracassado na sua tentativa de manter a paz mundial, sendo extinta em meados de 1942. Alguns anos mais trade, depois de Bretton Woods, parte de suas atribuições seriam absrovidas pela Organização das Nações Unidas – ONU.

Durante o tempo em que vigorou a Sociedade das Nações, o ministro das Relações Exteriores do Brasil era Domício da Gama que tinha prestígio com as autoridades americanas, principalmente junto a Woodrow Wilson. Graças a este prestígio o Brasil contou com três delegados na Conferência de Paz em Versalhes, ficando assim com o mesmo número de delegados que a Bélgica e a Sérvia, e com participação inferior apenas a das grandes potências, os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha, a Itália e o Japão, que contavam com cinco delegados cada. Também pelo prestígio alcançado, participou como membro temporário do Conselho da Liga das Nações, pelo mandato de três anos, tal como a Espanha. Os membros temporários seriam decididos novamente por meio de votação e o Brasil foi reeleito para o Conselho. Durante esse período em que o país esteve entre os países mais importantes do mundo criou-se um tipo de aliança e de aproximação muito boa e importante com os Estados Unidos.

Mesmo com o prestígio que obteve dentro da Sociedade das Nações, o Brasil não conseguia seu objetivo maior que era o de integrar como membro permanente o Conselho Executivo da Liga das Nações. Esse objetivo já havia sido negado, além do Brasil, a outros quatro países desejavam ocupar esse posto permanente: Bélgica, China, Polônia e Espanha. Entretanto, para a política externa brasileira, passou a ser um objetivo alcançar essa posição e, em 1924, foi criada uma representação permanente do Brasil junto à Liga, chefiada por Afrânio de Melo Franco.

Depois de os EUA se afastarem da Liga, o Brasil tentou ocupar o lugar que seria dele em nome de haver uma representação que defendesse os interesses da América. Foram muitos os desgaste e excessos, e mais ainda a falta de percepção, pois os países europeus consideravam necessário ter poderio bélico, coisa que a política externa brasileira não considerava essencial para pleitear o posto desejado e para ser reconhecido como potência. Com o desenrolar dos fatos, esse objetivo foi ficando cada vez mais distante. A Alemanha, por sua vez, agora também desejava participar da Sociedade das Nações e queria integrar o grupo das grandes potências, obviamente, almejava ocupar um posto permanente na Liga, tornando-se assim mais uma adversária para o Brasil. A Alemanha consultou o Brasil sobre sua inclusão na Liga e o Brasil posicionou-se a favor, porém, mais tarde a posição brasileira foi modificada, pois o Brasil afirmava que apoiaria as pretensões alemãs desde que também fosse aceito como membro permanente do Conselho. Isto gerou um grande desgaste e o Brasil não conseguiu o posto desejado, pelo contrário, ainda deixou de ser membro seletivo, em 1925, após cinco anos de mandato. Em 1927 os membros permanentes da Sociedade das Nações eram: Inglaterra, França, Itália, Japão e Alemanha.

A participação brasileira na Sociedade das Nações se deveu muito à aproximação entre Brasil e Estados Unidos. Essa amizade com a grande potência abriu caminhos para o país e trouxe para a tradição da política externa brasileira a “vontade” de ser um parceiro privilegiado dos EUA. Não há dúvidas, apssado o tempo, de quanto Rio Branco foi astuto ao afirmar que os Estados Unidos seriam uma boa companhia para o Brasil. Na virada do século, Rio Branco percebeu que os EUA seriam uma grande potência e que teriam grande influência no mundo todo, transformando assim a América Latina de área de influência européia para área de sua influência, referendando e, em certo sentido, mudando a doturina Monroe: cada vez mais a América seria dos americanos.

(Livia Honorato e Profª Gloria Moraes)

Fonte:
Cervo, Amado Luiz e Bueno, Clodoaldo -“História da política exterior brasileira” – CEBRI/UNB, 2002, Brasília.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

olá, deixe o seu comentário !