sexta-feira, 26 de junho de 2009

O poder estrutural do dólar

JOÃO GABRIEL MAIA e GLORIA MORAES*

Após as crises na ecomonia mundial dos anos 70, pensava-se que os EUA perderiam o status de hegemon. O que os analistas, econômicos e de relações internacionais, não perceberam foi que os EUA davam uma guinada em sua política externa, abandonando o padrão acordado em Bretton Woods, desfavorável ã sua economia e ao seu projeto de poder, e junto com a Inglaterra determinavam o fim do welfare state. Assentados em uma política externa que, se no campo das armas não abandonava o realismo, no campo econômico utilizava a moeda como poder estrutural.
Através do que Tavares (1984 e 1994) denominou de “diplomacia do dólar”, os EUA redefiniram suas estratégias no plano econômico enquanto avançavam no plano geopolítico com a “diplomacia das armas”, cujo objetivo último era a derrota da URSS, em todos os níveis, e o enfraquecimento das idéias keynesianas que sustentaram a reconstrução européia do pós Guerra. Retomando um conjunto de idéias de cunho liberal, os EUA provocaram profundas transformações no cenário das relações internacionais, bem como em sua hierarquia e no funcionamento e estrutura das instituições multilaterais. Sem que muitos se dessem conta, em meados da década de 80, enquanto o projeto se encontrava em curso, a periferia sistêmica e grande parte do mundo tentavam reverter o ciclo recessivo que as duas crises do petróleo provocaram.
No plano geoeconômico, a ruptura com o padrão fixo e a adoção do padrão flutuante deu ao dólar capacidade de alavancar e de internacionalização da economia norte-americana em moldes descomunais. A moeda americana funcionou, em parceria com a libra, como o motor central da globalização financeira, forçando a integração e a abertura dos mercados financeiros. A “diplomacia do dólar” teve como objetivo controlar “os sócios” (Japão e Alemanha) e os principais competidores dos EUA no bloco capitalista, garantindo a liberalização dos movimentos de capitais pelo mundo.
Entre 1979 e 1985, a “diplomacia do dólar”, também conhecida como política de Volcker[1], teve como pilar o fortalecimento do dólar, moeda desejada devido a forte choque de juros no mercado interno, favorecendo o financiamento do déficit público dos EUAseguido de novo choque nos preços do petróleo[2]. O choque de juros, acompanhado de outras políticas monetárias restritivas, resultou em grande valorização do dólar e, em contrapartida, causou enorme desvalorização nas demais moedas. Como conseqüência, as dívidas externas dos países periféricos - para utilizar a referência da Cepal - ou do Terceiro Mundo – termo utilizado com freqência em relações internacionais – cresceram desmensuradamente. Com desequilíbrio em suas balanças comercias devido aos preços do petróleo; com o serviço de pagamento da dívida impossível de ser honrado; e com a desvalorização dos preços das commodities, os países da perifeira, agrário-exportadores em grande maioria, ficaram sem saída e aprofundaram ainda mais o ciclo recessivo.
Entre 1985 e1989, os EUA enquadraram as principais moedas concorrentes. No acordo de Plaza, forçava as economias do G-7 a trabalharem de acordo com a as políticas macroeconômicas dos EUA, garantindo uma desvalorização do dólar para beneficiar seu setor exportador e diminuir os altos déficits internos provocados pela desregulamentaçao do seu mercado e pelos altos investimentos em seu projeto expansivo. Desta maneira, os títulos da dívida americana passaram a ser visto pelos investidores como uma referência, uma forma segura de investir seus capitais e não apenas como uma fonte de renda. O dólar se expandia como padrão internacional através do comércio e pela atividade financeira, era sem dúvida mais um poder estrutural dos EUA.
Os mais afetados com essa desvalorização forçada foram os bancos japoneses que perderam muito de seus patrimônios, pois possuíam grande parte da dívida americana. Embora soubessem disso, concordaram em assinar o acordo de Plaza, demonstrando a submissão por parte deste país frente aos Estados Unidos, aceitando o enquadramento do yen.
No período entre 1989 e 1996, os EUA baixam sua taxa de juros para 4,5%, provocando um enorme crescimento dos mercados futuros de juros e câmbio, com a saída dos fundos de pensão americanos em busca dos “mercados emergentes”. Houve sucessivas bolhas especulativas e crises bancárias através do movimento de capitais, agora em mercados liberalizados, entre moedas “fortes” e “fracas” em relação ao dólar. Desta forma, o Fed determinava a presença obrigatória do dólar nas operações de securitização e arbitragem nos principais mercados de derivativos cambiais, afirmando, finalmente, a posiçao dominante da moeda norte-americana nos mercados financeiros globais.
Nestes mercados, o dólar se expandiu com três significados: fornecer liquidez instantânea; segurança nas operações financeiras; e como unidade de contagem de riqueza. Sem paridades cambiais fixas, ou seja, não havendo padrão monetário rígido, as funções centrais do dólar passaram a ser as funções de segurança e a de arbitragem sob as políticas monetárias e cambiais, ditadas pela batuta do Fed.
Quanto às assimetrias do crescimento internacional, houve uma expansão dos EUA a partir de 1983 quase ininterrupta, diferentemente dos países da OCDE, da América Latina e do Leste Europeu, provando que este movimento de globalização financeira beneficiou, sobretudo, os EUA. Além do mais, isto não foi o resultado da competição dos mercados globalizados, como pregam os EUA e os defensores desse “modelo”, mas sim de uma política deliberadamente trabalhada com a intenção de retomar sua posição de país hegemônico. O maior exemplo disto é a América Latina que sofreu muito com essa inserção subordinada, freando e abandonando seus projetos de desenvolvimento nacionais, e abraçando o processo de globalização, com perdas de competitividade, reversão de seu processo de industrialização, aumento absurdo das mazelas sociais e maior dependência dos fluxos de capitais especulativos externos.
Já no plano geopolítico, com a falência da URSS e a perda da Guerra Fria, ou da Guerra das Estrelas, o mundo passou de um sistema bipolar de influência, para um sistema de instabilidade estrutural, provocando uma nova ordem concentrada nas mãos da potência hegemônica americana. Com isso, os EUA afirmam sua posição de potência bélico-tecnológica em relação aos demais países do mundo, prosseguindo em sua escalada militarista, como define Chalmers Johson.
A partir do movimento coordenado de sua política externa, no campo geoconômico e geopolítico, os Estados Unidos reafirmam de uma vez por todas sua posição de líder mundial. Sem dúvida que o endurecimento de sua estratégia de ascenção, sobretudo, após a falência e a ruptura do bloco soviético, favoreceu a utilização e a radicalização de práticas de liberdade econômica, liberdade comercial, liberdade dos capitais financeiros e de investimentos diretos. Passados alguns anos, vemos com a atual crise capitalista mundial que, apesar de tudo, das perdas bruscas e volumosas de riquezas financeirizadas, o dólar aparenta manter seu poder estrutural.


Fonte:
FIORI, J. L. e TAVARES, M. C. (org) – Poder e Dinheiro – Ed. Vozes, Petrópolis, 1997.
* Trabalho realizado para a disciplina de Introdução à Política Externa do curso de Relações Internacionais da ESPM-Rio, Turma RI4A – Profa. Gloria Moraes.
[1] Referência ao presidente do Federal Reserve (Fed), Paul Volcker, durante os governos de J. Carter e R. Reagan.
[2] A subida vertiginosa foi causada não apenas pelo embargo da oferta, como acontecera em 1973/1974, através de manobra da OPEP em defesa dos países produtores, mas pelo fato da entrada da produção do Mar do Norte acarretar a emissão de novo papéis no mercado futuro.

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