AS RELAÇÕES ENTRE BRASIL E ESTADOS UNIDOS NO PERÍODO 1900-1930
João Gabriel Maia e Profª. Gloria Moraes
As relações bilaterais entre Brasil e EUA evoluem junto com a transição do governo do Brasil. Deixando para trás o regime monárquico, a República traz mudanças profundas. Inicialmente, a diplomacia do Império percebia que, com a ascenção da economia dos Estados Unidos, consolidava-se um subsistema de poder no continente americano, um novo eixo no sistema mundial. Por essa razão, a diplomacia brasileira reagia de forma desfavorável a quaisquer iniciativas que pudessem significar uma redução da liberdade de ação do País. Observou-se, por ocasião da I Conferência Internacional Americana (1889-1890), que ao tempo da proclamação da República no Brasil, o governo americano, que já havia demonstrado uma liderança sobre os demais países da América, poderia ter a pretenção de ser escolhido como “árbitro perpétuo”. Para a diplomacia brasileira, esta era uma situação de muita gravidade frente aos interesses e à política externa do Brasil que, diferente das outras nações vizinhas, aceitava apenas o “arbitrariamento facultativo”. O Brasil não tinha interesse em romper os laços com a Europa, especialmente a Inglaterra, pois lhe convinha manter suas relações, estabelecendo assim um fortalecimento no equilíbrio exigido pela necessidade de manter sua forma atual de governo.
Proclamada a República, a mentalidade e o rumo da política externa brasileira tomaram outra direção que passou a se basear em adotar o “espírito americano” nas antigas instruções do governo monárquico. Com isso, na prática, o Brasil começou a ingressar numa fase de aproximação com os países americanos, em especial, os Estados Unidos, ao contrário da atitude imperial de não envolvimento e cautela nessas relações. Sendo assim, foram aprovados os projetos de arbitramento obrigatório em benefício do governo norte-americano que resultou numa maior aproximação entre as delegações dos dois países. Uma nova fase tinha início para ambos os países – Brasil e Estados Unidos – marcada pela cordialidade e entendimento.
Para os norte-americanos, havia a oportunidade de aumentar o seu grau de influência na América Latina, visando a posição geográfica e política do Brasil dentro do continente que, até então fora zona de influência da Europa, devido ao processo de colonização, e se tornara, em grande maioria, área de influência da Inglaterra, em razão de interesses financeiros, comerciais e políticos. Para os brasileiros, era uma grande oportunidade de ampliação de mercado para os nossos principais produtos de exportação, como o café e o açúcar, e a reestruturação e criação de novas instituições, capitalistas modernas. Além disso, os EUA exerciam uma natural sedução sobre os governantes da República, como exemplo de nação bem sucedida e de projeto expansivo em andamento. Não foi por acaso que, com enorme facilidade e muitas felicitações, o Senado norte-americano reconheceu a República brasileira.
Neste “clima de festa”, foi assinado o que se chamou de “tratado recíproco”, que previa uma grande lista de produtos norte-americanos com tratamento tarifário especial e vice-versa. Eram produtos que muitas vezes gozavam de isenção de impostos como a farinha de trigo americana importada pelo Brasil e o café e o açúcar brasileiros exportados para lá. O café era o principal produto brasileiro e os EUA foi se tornando o principal comprador. Desta maneira, as relações econômicas e políticas foram colocados pelos novos governantes da República no mesmo patamar de importância que antes tinham as relações com a Europa. Os EUA, a partir de 1898, exercitavam-se na geopolítica mundial e procuravam aumentar suas áreas de influência econômica, criando um subsistema internacional de poder. Ao mesmo tempo que procuravam ampliar sua presença comercial na América Latina e na Ásia, os EUA também, assim como outros páises europeus, começavam a ameaçar a hegemonia da Inglaterra.
A inserção do Brasil no capitalismo mundial se deu, basicamente, através da atividade agrário-exportadora, principalmente o café que, em determinado momento, chegou a representar quase 73% do total de exportações brasileiras. Foram também importantes para a inserção do Brasil no centro capitalista, para utilizarmos a terminologia da CEPAL, a importação de manufaturados e alimentos, o recebimento de capitais, tanto para pagamento da dívida externa quanto para obras de infra-estrutura, além de financiamento das safras de café. Os demais produtos primários passaram, cada vez mais, a sofrer dificuldades para se expandirem nos mercados internacionais, como foi o caso do algodão que viveu seu apogeu durante a guerra de secessão nos EUA e agora sofria com a forte concorrência da retomada da produção do próprio EUA. Outro caso foi o da borracha que, igualmente, passou a sofrer forte concorrência das plantações inglesas, assim como o açúcar, que concorria no mercado internacional com desvantagem com as produções da Jamaica inglesa, de Cuba, de Porto Rico, das Filipinas e das Antilhas. Desta forma, o café se tornou cada vez mais a saída natural para a economia brasileira que, ainda por cima, se aproveitava do aumento do consumo de café em todo o mundo, com o crescimento dos centros urbanos e da classe trabalhadora.
Sem dúvida que a popularização do café ajudou a acentuar as relações Brasil-EUA (o maior mercado para este produto), como já dito anteriormente. Também, neste período, os EUA passaram a ser o maior vendedor para o Brasil, ultrapassando em alguns segmentos a Inglaterra. Posteriormente, os EUA participaram, já no governo Vargas, de investimentos voltados para a industrialização por meio de substituição de importações, fazendo com que a influência inglesa no mercado brasileiro se retraísse ainda mais. Outros fatores importantes para essa “troca”, ou alternância, foi o fato da perda de posição de primeira potência mundial, por parte da Inglaterra, na hora em que seu foco teve que se voltar para a competição interestatal européia, culminando com a I Guerra Mundial. A Guerra afetou os transportes marítimos, o fornecimento de bens importados e a disponibilidade de capitais britânicos.
A relação entre o Brasil e os EUA se tornou tão forte que, mesmo com a Tarifa Dingley, de 1897, que reafirmava o protecionismo norte-americano, o Brasil foi o único país da América Latina que manteve o convênio comercial/aduaneiro, gozando e oferecendo benefícios tarifários. Esta convenção durou até 1922. Neste período, os EUA já eram os maiores compradores e fornecedores do Brasil, com um fluxo comercial expressivo. Em termos de investimentos, houve um salto de 50 milhões de dólares, investidos em 1913, para 476 milhões, em 1929, tornando-se também credor de quase um terço da dívida externa do Brasil.
Além dos aspectos comerciais, a I Guerra Mundial também teve influência nas relações geopolíticas entre os dois países. Inicialmente, o Brasil adotou uma posição neutra em relação à Guerra. Porém, a oportunidade de investimentos norte-americanos no Brasil, deu o tom e levou o Brasil, mesmo que modestamente, a participar da I Guerra Mundial, sendo o único país sul-americano a entrar na disputa.
Com o fim da neutralidade brasileira em favor dos EUA e das potências aliadas, o intercâmbio comercial entre os dois países cresceu ainda mais, em detrimento das relações Brasil-Alemanha. Ao fim do conflito, Nova York já era um centro financeiro importante, disputando com Londres o lugar de mercado de capitais mais importante do mundo. Em relação ao saldo da balança comercial do Brasil, ao mesmo tempo que o país importava menos, devido à Guerra e à destruição da economia européia, aumentava demanda por seus produtos no exterior, como banha, carne, cereais e etc.
No entanto, depois da crise de 1929, com os EUA sofrendo os males de uma recessãopesada, impulsionada pelo viés nacionalista da revolução de 1930, e já com o governo provisório instalado, houve um certo estremecimento nas relações Brasil-EUA. Mesmo que o novo governo não tivesse dificuldades para ser reconhecido internacionalmente, pois cumprira todos os compromissos internacionais, os EUA já haviam dado seu apoio ao governo legal de Washington Luís. Em decorrência, não houve a renovação do contrato acerca da missão naval norte–americana no Brasil.
O novo chanceler, Afrânio de Melo Franco, ficou no posto até 1933 e não promoveu mudanças significativas nos rumos da política externa brasileira, porém, os efeitos na economia brasileira em decorrência da crise de 1929, fizeram com que o novo governo do Brasil tivesse uma nova percepção do interesse nacional. Na prática, exerceu uma política de “jogo duplo”, oscilando, na crise que culminou com a II Guerra Mundial entre o apoio aos EUA e Inglaterra e a Alemanha, com a finalidade de barganhar benefícios. Mesmo assim, embora obtendo ganhos, pesou na escolha do Brasil o fato de que a relação de amizade com esses países constituía uma parceria tradicional, fazendo com que houvesse um novo alinhamento brasileiro aos Estados Unidos.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
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