segunda-feira, 6 de abril de 2009

Tradição e Análise Histórica

Tradição e Análise Histórica


A análise histórica se movimenta em duas direções. Na primeira, procura identificar no sistema internacional os condicionamentos externos que fazem com que a política externa brasileira passe a querer entender como o Estado nacional pode se inserir no “sistema mundo”. Na segunda direção, procura atender a interesses nacionais nem sempre convergentes, seja do próprio Estado e/ou do projeto expansivo e econômico do País e de grupos cujos interesses econômicos requerem a intermediação da política externa.
Durante o século XIX, “século inglês, do padrão ouro”, na América Latina a Inglaterra consolidou suas zonas de influência e soube habilmente construir a diplomacia por serviço para atingir seus objetivos, como no caso brasileiro. É de nossa tradição a separação dos assuntos relacionais, ou seja, ligados aos interesses do Estado, em prol de seu reconhecimento e de defesa de seu território, no jargão das Relações Internacionais, à expansão pelas armas, e o mundo dos negócios, no nosso caso, principalmente às questões relacionadas ao comércio e às necessidades de financiamento. Coube a José Bonifácio de Andrada e Silva, a primeira gestão da pasta de Negócios Estrangeiros.
No início do século XX, diferente de outros países da América do Sul, inclusive da Argentina, que surgia como promessa de “hegemonia” no continente sul americano, o Brasil logo percebeu haver uma mudança no eixo de poder, pois o fluxo de migrantes e de comércio para os EUA sinalizava sua expansão. A influência dos EUA no concerto internacional já era transformadora e isto levou Rio Branco a ver a Doutrina Monroe não apenas como um projeto de não envolvimento da América nas questões conflituosas da Europa, mas como uma doutrina que pregava a defesa do continente da vontade expansiva dos Estados nacionais europeus. Não por acaso, a política externa conduzida por Rio Branco entendeu que a embaixada em Washington era essencial para redefinição do projeto brasileiro, ainda direcionado para a resolução das questões lindeiras, ou seja, para a resolução das questões de fronteiras e de consolidação de seu território na América do Sul. É bom lembrar, ainda que pareça distante, que em 1902, como era costume, a Inglaterra cobrou dívidas da Venezuela utilizando suas forças armadas.
Seguindo a leitura feita por alguns pesquisadores, podemos dizer que a tradição da política externa brasileira guiou-se pelo princípio da não intervenção, mas que se baseava numa avaliação realista do sistema internacional. Sua proposta de ação constituía-se em uma versão “eminentemente brasileira”, coerente com os interesses nacionais, mas que sempre manteve a idéia de reafirmar sua soberania, a necessidade de coesão interna e, internacionalmente, o uso de estratégias maleáveis. Internamente, apesar de a política externa ocupar espaço no debate político, mostrando nem sempre haver consenso, a análise em círculo fechado foi o recurso utilizado para a centralização das decisões.
Com Rio Branco como Chanceler, Joaquim Nabuco foi o 1º. Embaixador brasileiro em Washington, e esta gestão foi essencial para reconhecer “o poder de polícia” que os EUA se propunham exercer e para que o Brasil entendesse que dali se expandia um novo subsistema internacional de poder. A visão realista da gestão de Rio Branco permitiu perceber o peso dos EUA na nova distribuição do poder mundial e o fato de que a América Latina passava a se constituir em sua área de influência e não mais como um subsistema europeu.

Gloria Moraes – março/2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário

olá, deixe o seu comentário !