terça-feira, 12 de abril de 2022
Uma leitura geopolítica do conflito na Ucrânia
A crise militar na Ucrânia como mais um fator anti-globalização
(Fernando PADOVANI)
O ato de rebeldia desafiadora promovido pela Rússia ao invadir militarmente um país protegido pela Otan gerou uma reação estridente nas esferas governamentais e da opinião pública Ocidentais, mas pouco concretas politicamente, se restringindo a bombardeios de declarações, rajadas de “subidas de tom” e, sobretudo, a medidas de sanções econômicas contra os interesses econômicos russos.
Se a efetividade dessas medidas ainda é uma questão em aberto, a possibilidade de que isso venha a minar em vez da sustentabilidade de Putin, mas sim a credibilidade do sistema financeiro Ocidental, parece bem maior. Isso porque pode estar se transmitindo mensagens claras para todos os atores da economia internacional, públicos e privados, de que esse confisco direcionado hoje realizado contra a Rússia poderá, amanhã, ser direcionado contra qualquer governo ou empresa que não se alinhe a “interesses vitais” americanos ou europeus.
Perspectivas geopolíticas a partir do conflito na Ucrânia
(Fernando Padovani)
Crise no Ocidente neoliberal
(Fernando Padovani)
A ordem ocidental neoliberal que se consolida após 1991 está impregnada pelo otimismo das relações de mercado sem fronteiras, um otimismo planetário, e foi pesadamente influenciada pela experiência da queda do muro de Berlin, ou do fim das experiências de socialismo de Estado. Coincidentemente (ou não) ampliada pela introdução da internet na vida cotidiana em 1992, o sentimento de queda de fronteiras de limites, vivenciadas pela abertura de mercados, pela multiplicação dos fluxos de mercadorias, de capitais, de pessoas, mas, sobretudo, de informação, o que fundamenta essa experiência.
No plano cultural, essa ordem neoliberal, agora de traço ou aspirações muito internacionalista, muito transnacionalista ou, “globalista”, passa a ser marcada por tendências semelhantes, marcadas também por essa repentina ampliação de horizontes. Os traços culturais dessa época passam a cultuar um sentimento cosmopolita, uma arquitetura de fusões pós-modernas, de “não-lugares”, de expressões culturais como música ou “fashion” marcadas pelos fusão de estilos multiculturais, de desconstrução de identidades livres de localismos, de instituições, de tradições, de heranças, de definições rígidas. De certa maneira, aprofundam as tendências “pós-modernas” já ensaiadas e identificadas na década anterior, que caracterizam uma ampla e longa reelaboração da Modernidade.
A expressão política desse sentimento de desconstrução das identidades modernas a partir dos anos 1990 foram movimentos igualitários e pluralísticos, novos movimentos de liberação com novas reivindicações, que foram incluídas da agenda da chamada “nova esquerda”, tais como, especialmente, os movimentos de desconstrução de gênero, e também, subsidiariamente, novos movimentos de resgate das questões de igualdade de gênero, de raça e de minorias culturais. Os movimentos de combate à identidade de gênero tradicional lideraram esta rebelião pós-moderna por ter sido a principal área de “normatividade” herdada do mundo da Modernidade, enquanto as outras reivindicações igualitárias, já abordadas nos anos 1960, como feminismo e movimento negro, foram revisitadas e revitalizadas, em função do sentimento de incômodo gerado pela factual fragmentação pós-moderna neoliberal, fragmentação econômica e sociológica. Estruturas tradicionais ainda resistentes da Modernidade, ou até anteriores, parecem ter se tornado disfuncionais, obstrutivas, não mais palatáveis nessa nova era, como o patriarcado, hierarquias, tradições, dominâncias, supremacias e privilégios. Em algum lugar desse espectro também se encaixam a já longa emergência de movimentos similares ao da “velha esquerda”, de contestação do sistema capitalista, mas, na virada de século “ajour-nados” como defesa do meio-ambiente.
Como NÃO era de se esperar, esses novos movimentos de desconstrução, parecem ser a fonte das reações culturais, de “guerras culturais” entre as novas militâncias e os de novos tradicionalismos, neoconservadorismo. Uma guerra cultural marcada pela intolerância, pois as posições emergem num momento de elevado contraste, do contato de valores muito diferentes, e de difícil negociação e assimilação. A inclusão de políticas de governo nessa variável, agregando ações concretas redistributivas em favor de qualquer uma das visões de mundo, bem como a descentralização das mídias de comunicação, com a multiplicação da comunicação e da formação da opinião pública através de plataformas sociais, que amplificam e otimizam a mobilização, sem dúvida tem tido o efeito de multiplicar a polarização e a radicalização destas guerras identitárias de uma pós-modernidade globalizada marcada essencialmente pela desconstrução social e econômica das identidades da Modernidade.
O curioso é que essa ordem neoliberal cosmopolita, chamada por alguns de “globalismo”, entrou em questionamento após a crise financeira mundial de 2008, mas também pela perda de sustentabilidade da política externa imperial dos EUA, política esta que de alguma maneira emprestava sustentabilidade política para a ordem político e institucional no senso estrito. O atual esgotamento do intervencionismo americano, que fora iniciado a partir do final dos anos 1990, e amplificado a partir do 11 de setembro de 2001, começaria a se manifestar a partir das recessões de 2008/11, quando se evidenciaram as disfuncionalidades domésticas já instaladas, como atraso das infraestruturas, perda de competitividade, problemas de coesão social, bem no estilo da hipótese do “imperial over-strecht”. Estes temas, que tem sido pontos centrais recorrentes nas campanhas eleitorais tanto de candidatos democratas como republicanos, podem estra na base das decisões do movimento contemporâneo de “encolhimento” americano na cena internacional, como demonstram as retiradas de tropas do Iraque, do abandono apressado do Afeganistão, da terceirização da condução do conflito na Síria para a Rússia e, finalmente, para o imobilismo frente à invasão russa na Ucrânia.
A crise sanitária gerada pela pandemia do vírus corona em 2020, e o tipo das políticas públicas adotas nas tradicionais economias ocidentais, podem ser um sintoma dessa mudança de percepção sobre a realidade política no Ocidente. Como uma ressaca de duas décadas de políticas neoliberais no Ocidente, com uma percepção de fracasso disseminada a partir de 2008. Uma percepção de fracasso expressa pelas agendas políticas tanto dos movimentos de esquerda como dos movimentos conservadores, ambos a partir de então defendendo pautas nacionalistas e protecionistas. Complementarmente, evidenciou-se o contraste do sucesso relativo das grandes economias emergentes, que passaram a ser coletiva mais ricas que o Ocidente, e mais promissoras, em função das taxas de crescimento, as democracias ocidentais parecem ter adotado a receita de sucesso destas novas economias emergentes, especialmente a China, mas também os BRICS, com suas histórias de sucesso apoiadas sobre uma espécie de “capitalismo de Estado”, economias de mercado conduzidas por “centralismo democrático”, com políticas públicas fortemente presentes na condução das decisões coletivas. O centralismo democrático acabou por colonizar as democracias liberais, a partir de efeito demonstração do sucesso de vigorosas políticas estatais na condução de sociedades em estado de profundo questionamento, e de medo diante das novas incertezas vindas de horizontes distantes, demasiadamente abertos, desprotegidos.
Nesse contexto que a eclosão da pandemia em 2020 oferece uma oportunidade para que um novo consenso fosse expressado no Ocidente. Uma redescoberta de políticas estatais mais pesadas, mais intervencionistas, de mecanismos de controle, da dimensão policialesca do estado, de redução das liberdades fundamentais, entre outras.
Toda uma evolução que deixa a sociedade Ocidental numa encruzilhada, num final de ciclo onde os caminhos à frente não são nada claros. Em primeiro lugar a aceleração neoliberal dos anos 1990 deixou como um dos legados uma crise cultural, uma crise no plano das identidades. Crise das tradicionais identidades pessoais, identidades comunitárias, identidades coletivas, identidades nacionais. Foi um período de grande crescimento econômico, de ampliação das relações de mercado nas relações locais, e uma ampliação do mercado por coma das fronteiras, tão comumente chamada de “globalização”. Essa aceleração da disseminação de relações de mercado e esse sentimento de cancelamento de fronteiras criou, em uma mão, uma disfuncionalidade de várias estruturas sociais do século 20 e, em outra mão, esvaziou o sentido das próprias fronteiras, das delimitações, não apenas entre países, mas entre instituições. Em segundo lugar, as crises identitárias geram crises políticas, criando sérios obstáculos para a construção de consensos coletivos, dificultando sobremaneira a mobilização de amplas maiorias na direção de prioridades, na direção da ação, para a construção de políticas públicas minimamente sustentáveis, sejam elas quais forem. Em terceiro lugar, as políticas entre 1991/2008 deixaram como legado uma crise econômica, marcada por baixo crescimento, baixa competitividade e alto endividamento. E, por fim, um quarto elemento, esse final de ciclo culminou com um esgotamento da liderança mundial, o que tem deixado espaços vazios para a ocupação e para a construção de novos circuitos de liderança, bastante fortes e independentes dos interesses americanos e europeus, o que em nada contribui para a defesa dos interesses ocidentais. A ousada e desafiadora invasão russa na Ucrânia seria uma expressão desse encolhimento ocidental e, paradoxalmente, a reação limitada baseada em sanções, tem apenas contribuído para reafirmar mecanismos e circuitos econômico-financeiros alternativos para aqueles construídos e liderados pelo Ocidente desde o pós-guerra.
(abril de 2022)
sábado, 5 de março de 2022
Conflito na Ucrânia em 2022
(Fernando Padovani)
- "is putin gone full tonto ?": diante do atual desdobramento das tensões na ucrânia, emergem uma série de análises da situação baseadas nos arroubos personalistas do presidente russo vladimir putin, ou ainda baseada na loucura ou dissonância cognitiva das lideranças russas, nas limitações de entendimento, no seu isolamento em um universo paralelo, ou mesmo análises parecidas embora mais suaves, baseadas no erro de cálculo ou avaliação incorreta da realidade por parte daquelas lideranças russas como o elemento explicativo central da ação russa na fronteira da ucrânia. esse tipo de abordagem tem amplamente dominado a análise do caso, na imprensa, na diplomacia governamental e na academia.
- difícil de entender : entretanto, análises baseadas na "loucura" das lideranças estrangeiras, na irracionalidade ou em atitudes ensandecidas, abordagens que possuem sólida tradição na história recente da análise internacional produzida no ocidente, via de regra, acabam não sendo boas conselheiras, gerando assim muito mais espanto e surpresas do que boas previsões.
- choques de realidade : claro, abordagens fundamentadas nas variáveis do tipo "dissonância cognitiva" ou "total descolamento da realidade" quando são aplicadas literalmente a todos os atores internacionais envolvidos em qualquer situação, podem efetivamente gerar visões inspiradoras e interessantes, mas, pelo contrário, abordagens analíticas que atribuem racionalidade e a percepção de uma Verdadeira realidade a apenas a um dos atores, enquanto a irracionalidade é atribuída aos demais, via de regra se mostram improdutivas enquanto análise.
- mas, o que a rússia quer ? mas, no caso atual das tensões o quase monopólio de abordagens baseadas na liderança ensandecida de putin, no estrito senso, parece não fazer sentido, tendo em vista os indicadores que identificam uma boa dose de racionalidade das ações russas junto à ucrânia, onde todos os fatos e eventos parecem estar alinhados dentro de uma lógica de coerência. se a rússia não está agindo sob a liderança de um autocrata ensandecido e se ela não está promovendo uma ação imperial expansionista, o que ela está fazendo na ucrânia ?
- uma ação defensiva : o primeiro indicador de racionalidade se refere à forte motivação defensiva das ações russas, de preservação, e não a algum plano grandioso saudosista de reconstrução da URSS ou de desenvolvimento de um novo império russo, ou qualquer outro projeto que pressuponha ações expansionistas. procurar entender as tensões atuais na fronteira da ucrânia como parte de um movimento expansionista apenas poderia ter sentido se o recorte temporal da análise for iniciada exatamente em 24 de fevereiro de 2022. mas, qualquer outro que seja o recuo temporal da análise, fatalmente será possível se identificar um movimento de expansão militar-armamentista da otan dentro do território da ucrânia, desde 2006, como projeto e, concretamente, desde 2014, quando a ucrânia começa a receber armamentos da otan, se tornando um membro de fato da otan. com a intensificação da aproximação da otan ao longo de 2021, com declarações explícitas por parte do presidente zelinsky sobre um projeto de adesão a otan, e até de retomada da crimeia, fazendo com que esse "avanço" da otan não seja algo vago e abstrato, e tem sido documentado e denunciado formalmente por parte da diplomacia russa junto à otan. além disso, essa reação defensiva russa no seu "near abroad" tem sido anunciada, declarada, formulada explicitamente por putin (no poder há 23 anos) e por sua diplomacia (comandada por lavarov há 18 anos), de maneira contínua, repetida e coerente desde 2007, quando putin realizou um célebre e duro discurso na otan, explicitando ali as prioridades de sua política externa de segurança. de maneira contínua e consistente, a diplomacia russa tem sinalizado essa prioridade, a desmilitarização da ucrânia, como uma situação de ameaça vital para a rússia, e portanto, para ele inegociável. ao mesmo tempo, além do fato das lideranças russas jamais terem mencionado qualquer projeto expansionista, suas ações, coerentemente, não tem objetivamente promovido nenhuma aventura expansionista para muito longe de suas fronteiras, em nenhum momento nesses últimos 15 anos e em nenhum ponto do planeta. em suma, tanto os discursos como as ações russas na cena internacional tem sido claros, contínuos, coerentes e consistentes ao longo dos últimos 15 anos, promovendo ações defensivas ao redor de nas suas fronteiras. outro indicador da postura defensiva da rússia é a inexistência, até 2014, da percepção de expansionismo russo.
- "they mean it": aliás, diga-se de passagem, que a questão da presença militar da otan no exterior próximo é de fato, para a cultura política russa, uma "ameaça existencial", ou seja, um conceito central e inegociável. seja este conceito real ou retórico, esse é um critério elegido, alçado e mantido no panteão das prioridades estratégicas russas e, por isso, ele deve ser levado em consideração como demanda primeira em qualquer negociação geopolítica. uma demanda estratégica que não seria muito difícil de entender, a existência de dois grandes países-tampão para proteger o livre passo de tropas estrangeiros, como demonstra a história russa, marcada por muitas invasões estrangeiras por terra, perpetrada por potências europeias vizinhas. invasões que estão muito presentes na cultura política russa, especialmente a invasão alemã de 1941, que foi surpreendentemente detida às margens do volga, em stalingrado, com o custo de 2 milhões de vidas.
- essas considerações geoestratégicas focadas na importância da segurança russa tornariam até complementares o importante entendimento vigente na cultura russa sobre a inseparável unidade entre a ucrânia, e especialmente kiev, e a matriz cultural russa, onde a cidade santa de kiev é entendida como a origem do povo e da religião ortodoxa. como bem retrata o adágio russo, "kiev é a mãe da rússia, são petersburgo é a cabeça, moscou seu coração, e o volga o seu útero".
- ações militares sim, ocupação não : além da grande preocupação defensiva da rússia, coerentemente, parece pouco provável que ela promova uma invasão seguida de ocupação na ucrânia. em primeiro lugar, pelo baixo contingente russo posicionado nas fronteiras ucranianas, que não sinalizam uma operação longa e de larga escala. em segundo lugar, parece bem estabelecido na cultura política russa que tentativas de ocupação territoriais acabam quase sempre em atoleiros políticos, como ensinaram todas as custosas inciativas de ocupação promovidas pelo império soviético, seja no leste europeu como no afeganistão, aventuras que são popularmente são apontadas, tanto na historiografia russa como nos bares de moscou, como umas das principais razões do desmoronamento da URSS. ao mesmo tempo, a percepção negativa das desastrosas aventuras de ocupação foi mais do que didaticamente reiterada pelas experiências americanas no iraque e no afeganistão, deixando claro a validade da tradicional noção diplomática de que "uma coisa é vencer a guerra, outra completamente diferente é ganhar a paz". esse entendimento dos riscos de uma ocupação parece tornar extremamente improvável que ocorra uma situação de invasão de larga escala seguida de ocupação. em suma, não faz o menor sentido para a rússia a ocupação da ucrânia, sob qualquer ponto de vista, militar, estratégico, geopolítico, econômico, fiscal, logístico, prático, histórico.
- desmonte militar da ucrânia : considerando as demandas defesas prioritárias da rússia e a baixa probabilidade de invasão e ocupação russa da ucrânia, no estilo tanques russos nas ruas de kiev, uma terceira linha de ação deverá ser desaparelhar ou "limpar" a ucrânia de seu novo material militar adquirido junto à otan ao longo dos últimos anos, desmontando cuidadosamente o aparato militar local, item por item, em vários pontos da ucrânia, através de ataques aéreos pontuais e limitados, com pouco desdobramento de tropas terrestres, que se concentrariam nas províncias fronteiriças, como donetsky, lugansky e mariupol, forjando uma faixa contínua ao longo da fronteira russa, habitada por população etnicamente russa, e que declararam sua independência de kiev já em 2014, quando da derrubada do governo pró-russo em kiev.
- a carta do "regime change" está na mesa : entretanto, a possibilidade de uma mudança de governo em kiev existe, mesmo que talvez não seja o objetivo prioritário da estratégia russa. mas, considerando a fraqueza do governo ucraniano do presidente zelinsky, sustentado totalmente de fora, num país altamente dividido e polarizado, com uma imensa minoria culturalmente russa, oprimida e irredutível, as instabilidades trazidas pelas operações militares, com suas ações de "shock and awe", e seus apagões de energia e de informação, mais desabastecimento e bloqueios, podem até, eventualmente, gerar uma situação de vácuo de poder na política local, então aproveitada por opositores. entretanto, essa evolução seria mais um bônus para os russos, e não seu objetivo inicial e principal.
- elemento de barganha : com essas linhas de ação colocadas em marcha pelos russos, ações defensivas preventivas, no melhor estilo das intervenções americanas no oriente médio, a rússia buscaria atingir grande objetivo com esta operação, que é aumentar consideravelmente seu poder de barganha negocial, construindo uma vantagem militar de fato no terreno, através de medidas de força, para, então, cobrar uma "propina" política nas negociações futuras, para devolver uma autonomia desarmada para o governo de kiev, seja ele liderado por quem quer que seja. na sua lista de pedidos, os russos deverão incluir, a renúncia de médio-longo prazo de qualquer pretensão de entrada da ucrânia na otan, o congelamento de novas ações armamentistas na ucrânia e, se possível, de desmilitarização nuclear na polônia e na romênia e a entrada em operação do gasoduto nord-stream-2, ligando diretamente rússia e alemanha.
- aliás, o modelo de "intervenções preventivas", ou de "ataque pre-emptivo", celebrizado pelas intervenções militares americanas e europeias pelo mundo, como no caso das invasões ocidentais no kosovo, síria, iran, iraque e afeganistão, e escorado a marteladas até no direito internacional, através da criação do conceito de "direito de proteger", acabou estabelecendo o caminho conceitual para a intervenção russa na ucrânia, muito similar às ações anteriores, como tem sido explicitamente citado por putin e lavarov. claro que nenhuma dessas ações ocidentais que foram entendidas como uma ruptura da ordem institucional internacional, nem tornam as ações russas legítimas, mas equiparam todas essas ações, russas e ocidentais, ou colocando retroativamente em questionamento a legitimidade das ações ocidentais, ou validando resignadamente o pragmatismo dos imperativos políticos.
- e por que agora ? com esses objetivos em mente, o que explicaria a precipitação das ações agora, e não em 2014, ou nos anos seguintes, quando o conflito no leste da ucrânia se intensificou, com elevados custos humanitários, especialmente em donetsky e lugansky, entre grupos separatistas armados pelos russos e o exército ucraniano, apoiado por grupos para-militares de filiação neonazista. a oportunidade de ação escolhida por putin para promover esta ousada operação militar foi muito provavelmente criada, de forma inesperada, pelos eventos de kabul de julho de 2021. a expulsão das tropas americanas de kabul pelos talibans, sem que houvesse a menor reação, demonstrou para o mundo qual era, já naquele momento, a nova escala de prioridades estratégicas americanas, agora focadas na reconstrução da economia doméstica e muito limitadas pela disponibilidade orçamentária em tempos de crise. pode-se dizer que os eua, em kabul, "jogaram a toalha", desistindo de seu projeto de super comprometimento imperial ("imperial over-strecht"), decisão que encerra historicamente a era de única potência hegemônica, de "polícia do mundo", iniciada com a queda do muro. o propalado "novo século americano", que teria se iniciado com a "queda do muro", em 1989, acabaria se encerrando 30 anos depois com a "jogada da toalha", em 2021. e teria sido essa percepção a força mais inspiradora para a despreocupação de putin para empreender esse movimento de força no dombass.
- partilha pós-americana : a percepção disseminada de uma consistente e permanente retração geopolítica americana, teria já aberto caminho para uma nova e surpreendente estabilidade no afeganistão sob a liderança de talibans, pakistaneses e chineses a partir de 2021, mas também animado a rússia de putin para uma atualização da avaliação do risco-benefício de uma intervenção mais direta na ucrânia, uma questão nevrálgica desde sempre mas sempre relativizada em função dos riscos e equilíbrios passados. nesse sentido, a crise militar militar na ucrânia poderia ser entendida como parte do espólio da partilha pós-americana, ou como resultado direto do que zbigniew brzezinski chama de "desengajamento do ocidente atlântico da oferta de estabilidade mundial". ("Strategic Vision", 2012)
- rússia emergente : a esse encolhimento relativo dos eua na cena internacional, soma-se o movimento de reemergência da rússia, fundamentada sobre a sua reorganização interna, econômica e militar, promovida por uma liderança enviesada mas forte por parte de putin. esse processo tornou, de fato, a rússia uma potência emergente, uma potência capaz de contribuir para afastar a alemanha do alinhamento automático com a otan (movimento eventualmente alimentado por uma crescente desconfiança sobre o futuro dos eua e do atlântico como futuro viável), conseguindo compromissos alemães no que se refere a superficialidade das propaladas sanções econômicas e negociando a estabilidade de fornecimento de gás, eventualmente até através do polêmico (para os eua) gasoduto nord-stream-2. mesmo assim, esta re-emergência da rússia como potência não significa que a rússia poderá bancar uma postura ofensiva ou expansionista na europa, além de suas possibilidades, mas que sim autoriza a uma retomada dos esforços de contenção do avanço da otan.
- rússia e china : nesse mesmo sentido, pode-se pensar que, ao não ser convidada para ampliar o ocidente, quando do fim da urss, hoje, a rússia pode ser um elemento da divisão do ocidente, atraindo outros países a seguir o mesmo caminho que está adotando, ou para alguns, que está sendo jogada, na direção da china e do pacífico. talvez por ser um país muito peculiar, europeu e asiático, muito grande para se tornar apenas mais um membro da europa e ao mesmo tempo muito pequeno para dominar a europa. assim, a crise militar na ucrânia é também sintoma da transição da rússia para a órbita do pacífico, e de grande desenvolvimento de seu "eurasianismo" (segundo marlene laruelle, "russian eurasianism"). o apoio da china à ação russa na ucrânia é um indício que confirma essa tendência, apoio que acontece no apogeu da aproximação entre russa e china, o que é uma grande novidade da política internacional contemporânea, conjugada com o encolhimento americano. note-se também que, além de mais da metade das exportações russas estarem já direcionadas para a china, o único país asiático que adota medidas de sanções contra a rússia é a singapura. pois a prioridade estratégica do ocidente poderia ter sido a ucrânia já em 2001, num momento de fraqueza da rússia, acompanhada com concessões de segurança para a rússia, em vez das aventuras empoeiradas e custosas no afeganistão e iraque, o que contribuiria para trazer a nova rússia para a europa, e não empurrá-la para a china, movimento potencializado pelas sanções econômicas e pela desconexão financeira.
- "no boots on the ground" : outro importante indicador da incapacidade ocidental para a ação militar nesse momento para ensaiar qualquer contenção da projeção russa na ucrânia, e especialmente incapacidade americana de sustentar operações militares na ucrânia neste momento, se expressaria pela ênfase das reações diplomáticas focadas em "sanções econômicas". vale lembrar a velha lição de que, quando se fala excessivamente em "sanções econômicas" como instrumento de pressão, o que deve ser ouvido é "lamentavelmente, não enviaremos tropas".
- custos da expansão imperial : além da retirada atabalhoada das tropas americanas de kabul de 2021, entre outros sintomas dessa decadência do ocidente atlântico estariam a eclosão da crise financeira de 2008, a onda generalizada de protecionismo, a fragmentação identitária e o nacionalismo, a formação do G-20 como nova esfera alargada de governança internacional, a formação de blocos relevantes como os Brics, a inoperância de instituições multilaterais e blocos regionais, o movimento Brexit, a fadiga econômica das economias de industrialização antiga, marcadas por baixo crescimento, alto desemprego, deterioração do padrão de vida, elevado endividamento (público e privado), envelhecimento demográfico, e ainda instabilidade e polarização política doméstica, populismo, xenofobia, autoritarismo estatal, "make-america-great-again". no caso americano, essas tendências ocidentais seriam ainda agravadas pelos custos do "imperial over-strecht", causando elevadíssima participação dos gastos militares no orçamento em função de suas guerras imperiais no oriente médio, o que teria contribuído decisivamente para gerar a deterioração de infraestruturas, padrões de vida e de políticas públicas, especialmente a redução de políticas distributivas e de segurança social.
- um mundo multicêntrico e instável : dessa maneira, a consolidação de um mundo multicêntrico e, por isso, mais instável, marcado pelo poder político disperso, e por "instabilidade e extremismo político" seria "o legado inesperado do ocidente", numa nova configuração de mundo onde "o futuro, antes de ser chinês, seria caótico", um mundo "sem um único grande vencedor, mas com muitos perdedores", segundo a clássica avaliação de brzezinski (2012).
- histeria midiática : a cobertura midiática no ocidente, e especialmente nos eua, merece um capítulo à parte na reflexão, pois enveredou por uma reação altamente emocional e polarizada, por uma histeria anti-putin, uma "over-reaction" russofóbica, compartilhada pelas posturas da casa branca, departamento de estado e academia, estendendo de certa maneira a mesma coalização cimentada nos dois anos de colaboração durante a pandemia. coincidência ou não, a inflamada cobertura dos eventos na ucrânia se iniciaram no mesmo 24 de fevereiro em que o governo inglês anunciou o fim da pandemia, ou de todas as medidas de mitigação. esses circuitos parecidos de polarização podem passar pelo cenário eleitoral americano (com a aproximação das eleições de "mid-term"), onde uma administração biden fragilizada pela impopularidade pode inspirar uma associação abstrata, mas existente, entre trump e putin, uma politização doméstica dos eventos do leste europeu. um ataque feroz a putin seria de alguma maneira uma defesa da administração biden, ou de mitigação de danos, pois deverá colher custos políticos-eleitorais advindos da inação americana e da nova proeminência russa. muito significativo é a retomada de iniciativas de cancelamento, interdição do debate e censura em larga escala por parte das plataformas digitais das big-tech, cassando narrativas "negacionistas", ou pró-putin.
- entre fabulações e avaliações : claro que pode haver um erro de avaliação de putin, no que se refere à opinião pública interna, considerando um eventual impacto do numero de mortos numa campanha russa desastrada, ou no caso de uma muito improvável resistência local, ou no caso de uma perda de controle de narrativas, ou ainda até em relação em efeitos inesperados do mega-isolamento. mas, para se avaliar essa possibilidade de dificuldades russas, é importante esperar a poeira da desinformação baixar, para se avaliar o que está acontecendo de fato no terreno, tendo em vista a "guerra de informação" e a imensas discrepância de narrativas, coloridas pela fabulação sobre a resistência popular, o ataque russo a alvos civis, as dificuldades de tomada de kiev, a pretensa presença de soldados russos na território ucraniano "under-cover", entre outras fabulações.
- cenário provável : entretanto, de acordo com a observação dos indicadores de terreno, e de acordo com o equilíbrio vigente de forças geopolíticas na europa, o cenário mais provável é de uma evolução favorável para a ousada e petulante campanha militar russa, sendo encerrada dentro de um ciclo de duas semanas de campanha, que pode ou não provocar uma desarticulação do governo de zelinsky, seguido por negociações que atendam as demandas russas. entre os resultados dessa negociação, poderão constar concessões de lado a lado, como a conservação de zelinsky no poder, ou de um aliado próximo, mas sobretudo no congelamento das pretensões da otan na ucrânia, e também das iniciativas de re-militarização do país. e, dependendo do grau de sucesso das operações militares, as províncias fronteiriças de maioria russa poderão alcançar elevado grau de autonomia dentro da ucrânia, como uma concessão russa, ou até mesmo a incorporação á federação russa. de qualquer forma, existe uma possibilidade real que a grande "guerra da ucrânia" seja encerrada no dia 11 de março, sexta-feira, as 3 e meia da tarde.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
O poder estrutural do dólar
Após as crises na ecomonia mundial dos anos 70, pensava-se que os EUA perderiam o status de hegemon. O que os analistas, econômicos e de relações internacionais, não perceberam foi que os EUA davam uma guinada em sua política externa, abandonando o padrão acordado em Bretton Woods, desfavorável ã sua economia e ao seu projeto de poder, e junto com a Inglaterra determinavam o fim do welfare state. Assentados em uma política externa que, se no campo das armas não abandonava o realismo, no campo econômico utilizava a moeda como poder estrutural.
Através do que Tavares (1984 e 1994) denominou de “diplomacia do dólar”, os EUA redefiniram suas estratégias no plano econômico enquanto avançavam no plano geopolítico com a “diplomacia das armas”, cujo objetivo último era a derrota da URSS, em todos os níveis, e o enfraquecimento das idéias keynesianas que sustentaram a reconstrução européia do pós Guerra. Retomando um conjunto de idéias de cunho liberal, os EUA provocaram profundas transformações no cenário das relações internacionais, bem como em sua hierarquia e no funcionamento e estrutura das instituições multilaterais. Sem que muitos se dessem conta, em meados da década de 80, enquanto o projeto se encontrava em curso, a periferia sistêmica e grande parte do mundo tentavam reverter o ciclo recessivo que as duas crises do petróleo provocaram.
No plano geoeconômico, a ruptura com o padrão fixo e a adoção do padrão flutuante deu ao dólar capacidade de alavancar e de internacionalização da economia norte-americana em moldes descomunais. A moeda americana funcionou, em parceria com a libra, como o motor central da globalização financeira, forçando a integração e a abertura dos mercados financeiros. A “diplomacia do dólar” teve como objetivo controlar “os sócios” (Japão e Alemanha) e os principais competidores dos EUA no bloco capitalista, garantindo a liberalização dos movimentos de capitais pelo mundo.
Entre 1979 e 1985, a “diplomacia do dólar”, também conhecida como política de Volcker[1], teve como pilar o fortalecimento do dólar, moeda desejada devido a forte choque de juros no mercado interno, favorecendo o financiamento do déficit público dos EUAseguido de novo choque nos preços do petróleo[2]. O choque de juros, acompanhado de outras políticas monetárias restritivas, resultou em grande valorização do dólar e, em contrapartida, causou enorme desvalorização nas demais moedas. Como conseqüência, as dívidas externas dos países periféricos - para utilizar a referência da Cepal - ou do Terceiro Mundo – termo utilizado com freqência em relações internacionais – cresceram desmensuradamente. Com desequilíbrio em suas balanças comercias devido aos preços do petróleo; com o serviço de pagamento da dívida impossível de ser honrado; e com a desvalorização dos preços das commodities, os países da perifeira, agrário-exportadores em grande maioria, ficaram sem saída e aprofundaram ainda mais o ciclo recessivo.
Entre 1985 e1989, os EUA enquadraram as principais moedas concorrentes. No acordo de Plaza, forçava as economias do G-7 a trabalharem de acordo com a as políticas macroeconômicas dos EUA, garantindo uma desvalorização do dólar para beneficiar seu setor exportador e diminuir os altos déficits internos provocados pela desregulamentaçao do seu mercado e pelos altos investimentos em seu projeto expansivo. Desta maneira, os títulos da dívida americana passaram a ser visto pelos investidores como uma referência, uma forma segura de investir seus capitais e não apenas como uma fonte de renda. O dólar se expandia como padrão internacional através do comércio e pela atividade financeira, era sem dúvida mais um poder estrutural dos EUA.
Os mais afetados com essa desvalorização forçada foram os bancos japoneses que perderam muito de seus patrimônios, pois possuíam grande parte da dívida americana. Embora soubessem disso, concordaram em assinar o acordo de Plaza, demonstrando a submissão por parte deste país frente aos Estados Unidos, aceitando o enquadramento do yen.
No período entre 1989 e 1996, os EUA baixam sua taxa de juros para 4,5%, provocando um enorme crescimento dos mercados futuros de juros e câmbio, com a saída dos fundos de pensão americanos em busca dos “mercados emergentes”. Houve sucessivas bolhas especulativas e crises bancárias através do movimento de capitais, agora em mercados liberalizados, entre moedas “fortes” e “fracas” em relação ao dólar. Desta forma, o Fed determinava a presença obrigatória do dólar nas operações de securitização e arbitragem nos principais mercados de derivativos cambiais, afirmando, finalmente, a posiçao dominante da moeda norte-americana nos mercados financeiros globais.
Nestes mercados, o dólar se expandiu com três significados: fornecer liquidez instantânea; segurança nas operações financeiras; e como unidade de contagem de riqueza. Sem paridades cambiais fixas, ou seja, não havendo padrão monetário rígido, as funções centrais do dólar passaram a ser as funções de segurança e a de arbitragem sob as políticas monetárias e cambiais, ditadas pela batuta do Fed.
Quanto às assimetrias do crescimento internacional, houve uma expansão dos EUA a partir de 1983 quase ininterrupta, diferentemente dos países da OCDE, da América Latina e do Leste Europeu, provando que este movimento de globalização financeira beneficiou, sobretudo, os EUA. Além do mais, isto não foi o resultado da competição dos mercados globalizados, como pregam os EUA e os defensores desse “modelo”, mas sim de uma política deliberadamente trabalhada com a intenção de retomar sua posição de país hegemônico. O maior exemplo disto é a América Latina que sofreu muito com essa inserção subordinada, freando e abandonando seus projetos de desenvolvimento nacionais, e abraçando o processo de globalização, com perdas de competitividade, reversão de seu processo de industrialização, aumento absurdo das mazelas sociais e maior dependência dos fluxos de capitais especulativos externos.
Já no plano geopolítico, com a falência da URSS e a perda da Guerra Fria, ou da Guerra das Estrelas, o mundo passou de um sistema bipolar de influência, para um sistema de instabilidade estrutural, provocando uma nova ordem concentrada nas mãos da potência hegemônica americana. Com isso, os EUA afirmam sua posição de potência bélico-tecnológica em relação aos demais países do mundo, prosseguindo em sua escalada militarista, como define Chalmers Johson.
A partir do movimento coordenado de sua política externa, no campo geoconômico e geopolítico, os Estados Unidos reafirmam de uma vez por todas sua posição de líder mundial. Sem dúvida que o endurecimento de sua estratégia de ascenção, sobretudo, após a falência e a ruptura do bloco soviético, favoreceu a utilização e a radicalização de práticas de liberdade econômica, liberdade comercial, liberdade dos capitais financeiros e de investimentos diretos. Passados alguns anos, vemos com a atual crise capitalista mundial que, apesar de tudo, das perdas bruscas e volumosas de riquezas financeirizadas, o dólar aparenta manter seu poder estrutural.
Fonte:
FIORI, J. L. e TAVARES, M. C. (org) – Poder e Dinheiro – Ed. Vozes, Petrópolis, 1997.
* Trabalho realizado para a disciplina de Introdução à Política Externa do curso de Relações Internacionais da ESPM-Rio, Turma RI4A – Profa. Gloria Moraes.
[1] Referência ao presidente do Federal Reserve (Fed), Paul Volcker, durante os governos de J. Carter e R. Reagan.
[2] A subida vertiginosa foi causada não apenas pelo embargo da oferta, como acontecera em 1973/1974, através de manobra da OPEP em defesa dos países produtores, mas pelo fato da entrada da produção do Mar do Norte acarretar a emissão de novo papéis no mercado futuro.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Brasil e Argentina: cooperação e conflito
O processo de industrialização e de desenvolvimento dos países do “Cone Sul” é assimétrico, apesar de existirem algumas convergências, mas estas não são suficientes para tratarmos todos de forma homogênea. Desde os anos 30, que o crescimento econômico brasileiro vinha se acelerando, impulsionado pela reformulação das instituições do Estado e do sistema produtivo nacional que objetivava implantar indústrias de base e ampliar o processo de industrialização. Como o processo de industrialização brasileiro é concomitante ao dos países do Cone Sul, interesses comuns surgiram, como necessidade de maior interação entre mercados consumidores e utilização conjunta da rede hidrográfica e de outras fontes de energia que sustentassem a velocidade de crescimento, principalmente, do parque industrial brasileiro. A Usina de Itaipu, que está localizada na fronteira de Brasil e Paraguai, é importante marco desse início de integração, pois ela produziria energia para os dois países, porém em maior quantidade para o Brasil. Vários acordos foram assinados por esses dois países, e ainda hoje, apesar de ter consolidado relações, Itaipu ainda é motivo de negociações entre Brasil e Paraguai.
Durante muitos anos, até a criação do Mercosul, em 1991, após a assinatura do Tratado de Assunção, que foi assinado pelos quatro maiores países da América do Sul, ou seja, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, as relações entre eles, em determinados momentos, foram mais convergentes do que em outros. No Tratado, o Mercado Comum, no curto prazo, foi o principal objetivo, mesmo que na agenda aparente a integração aparecesse como objetivo principal. A livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos; uma tarifa externa comum; uma política comercial comum frente a terceiros e uma coordenação de políticas macroeconômicas para assegurar condições adequadas de concorrência entre as partes eram essenciais em um momento em que todos eram assolados por forte inflação e necessidades de negociação de suas dívidas externas. Assim, alcançar uma zona de livre comércio para maioria dos produtos, até 31 de dezembro de 1994, ficando outros postergados para um ano depois, era essencial para a melhoria das contas externas de todos, com suas balanças comerciais deterioradas pelo câmbio e pela brusca abertura comercial. No entanto, esse cronograma não pôde ser cumprido e, antes mesmo do término do ano de 1994, no mês de agosto, novos prazos já eram estipulados.[1]
A união aduaneira, obviamente, também fazia parte dos objetivos desta junção e implicava em adotar-se uma série de medidas que visavam harmonizar as políticas comerciais do Mercosul em relação a terceiros. O alicerce que sustenta esta união é a Tarifa Externa Comum (TEC), ou seja, a adoção de taxas de importação comuns aos quatro países sobre os produtos vindos de fora - que se situa entre 0% e 23% para aproximadamente 90% do universo tarifário, com os 10% restantes sendo parte da lista de exceções e que tinham previsão de convergir gradualmente até o ano 2006, também até hoje não consolidada integralmente.
“A formação do Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) foi a resposta sul-americana às exigências da nova dinâmica da economia mundial. O novo bloco representou o ponto culminante de uma tendência que vinha se fortalecendo desde os anos 50, quando a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) já estimulava maior integração e cooperação regional, e se alastrou pelas décadas seguintes, em meio ao processo de globalização. A necessidade de maior integração entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai vinha se tornando evidente, uma vez que, na atualidade, países vizinhos do porte dos dois primeiros, principalmente, não devem permanecer isolados.”[2](AVERBURG, 1998)
A queda dos governos militares, nos anos 80, no Brasil e na Argentina, acentuou o processo de aproximação, principalmente, no campo da cooperação econômica, objetivando avançar na integração econômica desses dois países, e também da região, um antigo projeto que muitas vezes entrou e saiu da agenda. A integração desejada entre Brasil e Argentina pretendia, partindo-se de setores estratégicos, resolver as assimetrias através de políticas estatais específicas. Assim, em período de escassez de Reservas, no caso de um déficit comercial exacerbado, de um país com o outro, seriam mobilizados os créditos nacionais de um país no sentido de favorecer a importação do outro. O quadro abaixo ilustra o fluxo dos investimentos líquidos.
Quando analisamos dados disponíveis, verificamos que o fluxo de Investimentos Diretos Estrangeiros, no período 1997/2000, entre os dois países foi significativo, com o fluxo argentino se direcionando para o Brasil, principalmente, nos segmentos de alimentos, montagem de equipamentos e telecomunicações; e com o brasileiro sendo mais expressivo em petroquímica, petróleo e gases industriais.[3]
Devido às divergências políticas, ideológicas e, principalmente, interesses econômicos divergentes entre seus membros, mormente entre Brasil e Argentina, o processo de integração econômica do Mercosul, apesar de ter evoluído, o faz lentamente. As “divergências econômicas” são de várias ordens, mas se concentram principalmente no nível macroeconômico, ou, em outras palavras, dadas políticas cambiais, níveis de déficit público e fiscal, e de inflação, os fluxos nem sempre convergem, como no caso do Brasil e da Argentina, que a balança comercial oscila e inverte a mão junto com a variação cambial. Por exemplo, a valorização cambial artificial promovida com o Plano Real, entre 1994 e 1998, resultou em déficits fiscais elevados e, na balança comercial, o desequilíbrio só foi contornado quando, a partir de 1999, desvalorizou-se brutalmente o real e se adotou taxas de câmbio flexíveis.
Carlos Ruckauf, governador da província de Buenos Aires, afirmava “Os brasileiros são como maus vizinhos que entram em nossa casa para roubar os móveis”. O então ministro Cavallo endossou esse tipo de discurso ao declarar que a culpa da crise Argentina era do Brasil, pois o presidente Fernando Henrique Cardoso teria preferido empobrecer seu povo ao desvalorizar a moeda, e agora quem estaria pagando “o pato” seriam os argentinos. O então presidente Fernando de la Rúa procurou amenizar as declarações feitas por seu ministro e reduzir as desconfianças acerca do fim do Mercosul para os investidores, afirmando que o Brasil era ainda o maior parceiro comercial da Argentina, ainda mais que, sem dúvida, a única grande fonte de superávit comercial argentino, cerca de 30% do que exportava, vinha para o Brasil.
Desde o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) que ficou clara a pretensão de liderança brasileira na região. O II PND, durante o governo Geisel, desenhou um amplo programa de investimentos cujos objetivos eram transformar a estrutura produtiva e superar os desequilíbrios externos, conduzindo o Brasil a uma posição de potência intermediária, no cenário internacional, e de liderança regional. O volume de investimentos setoriais previstos, deixava clara a intenção de o Brasil, no auge de uma crise recessiva mundial, completar os investimentos em setores estratégicos, como os de infra-estrutura e petroquímico, por exemplo. Depois dos anos de crescimento acelerado, ou seja, do “milagre”, o Brasil despontava no cenário internacional como potência intermediária, chegando a alcançar o 8º. lugar no ranking mundial, quando considerado o PIB. De acordo com Carneiro (2002)[4], há três correntes de interpretação sobre o período:
1ª. Ortodoxa - O PND seria uma evasão do ajustamento às crises externas e existiriam três alternativas ao governo brasileiro: a) reduzir a demanda doméstica com um ajuste recessivo; b) expandir a demanda doméstica por meio da expansão do financiamento externo; c) comprimir o consumo em favor do investimento. A opção escolhida foi a segunda, pois proporcionaria a legitimidade que o regime militar necessitava. Uma avaliação equivocada acerca da gravidade da crise do petróleo teria levado ao fracasso, haja vista o agravamento, no curto prazo, das contas externas. Haveria também, e isto não é irrelevante para esta corrente, ênfase excessiva no papel do Estado como protagonista dos projetos. Além de acentuar o déficit público, o fracasso PND também foi explicado por tentar a manutenção do crescimento e o controle da inflação por meio do endividamento externo.
2ª. Estruturalista - O período do II PND seria de ajuste estrutural e, numa versão mais positiva, o Plano teria atuado na formação de capital, em especial no setor de bens de capital e insumos básicos. Formando um ciclo longo de investimentos, estes foram direcionados para indústrias capital-intensivas e tecnológico-intensivas, possibilitando maior competitividade internacional. O maior erro do governo, segundo alguns autores, foi não atentar para a mudança de condução da política norte-americana, que abandonava o padrão dólar fixo, e que avançava junto com a Inglaterra para mudar as regras do jogo do petróleo, em resposta ao embargo da OPEP. Internamente, os investimentos foram superdimensionados, procurando-se ganhar em escala e acreditando-se em uma rápida reversão do ciclo recessivo.
3ª. Vertente crítica - O ajuste estrutural do II PND teria fracassado, em especial, pelo momento inadequado em que foi implementado. Além da perda de dinamismo da economia mundial e do choque do petróleo, o crescimento interno entrava em seu momento cíclico de desaceleração. A mudança do eixo de investimentos para a indústria pesada criou conflitos de interesses com o setor de bens duráveis, dominante no período anterior do “milagre econômico”. Também contribuiu para o fracasso a conjuntura internacional. Apesar de o esforço exportador ter sido considerável, o II PND implicava, no curto prazo, um agravamento do déficit em conta corrente, pois ampliava o hiato de recursos.
Em síntese, de acordo Carneiro (2002, p. 59), as interpretações ortodoxa e crítica apontam para o momento inadequado da implementação (conjuntura internacional recessiva e desaceleração cíclica interna); a falta de articulação entre os investimentos; a excessiva dependência do financiamento externo; o descuido da questão energética (dependência do petróleo importado, tornando país vulnerável a novos choques externos).
O que se seguiu foi um enorme ciclo recessivo que afetou toda a periferia sistêmica e levou ao colapso os processos desenvolvimentistas, principalmente os do Brasil, Argentina e México, agora com enormes dívidas externas e internas, sem condições de financiamento, deterioração das contas públicas e inflação corrosiva. Daí para frente, a competição entre Brasil e Argentina se agravaria, ao mesmo tempo em que ambos se aproximariam procurando, através da integração, melhor condição de negociação de suas dívidas e melhorar a performance de seus balanços de pagamentos. Entretanto, a divergência acerca de suas políticas macroeconômicas de curto prazo, mormente o juro e o câmbio, levaria a situações conflituosas.
Agravando ainda mais a crise que se arrastou entre esses países durante os anos 1990, principalmente durante o Plano real e o Plano Cavallo, a Argentina promoveu profunda redução, para países de fora do Mercosul, nos impostos de importação para produtos de informática e telecomunicações. Isto, naturalmente, eliminou as vantagens brasileiras com relação ao mercado de componentes, cujos esforços aqui foram grandes para se avançar no segmento. O objetivo do país vizinho era se modernizar e atrair investimentos diretos[5], pleiteando para o país isenção de Taxa de Exportação Comum (TEC) para uma lista de máquinas e equipamentos, sob alegação de necessidade de renovação do parque industrial argentino. O problema foi que nessa lista constavam produtos de informática e telecomunicações, produtos salvaguardados por convenção em tratado do Mercosul. Para ressaltar a “temperatura” dos sentimentos naquele momento, basta dizer que esse episódio foi chamado, no Brasil, de “Golpe da Lista”. De fato, a questão cambial e a abertura comercial, sem respeito aos acordos do Mercosul, gerou desconfianças e conflitos que até hoje persistem.
Acreditamos, então, que as crises trouxeram, indiretamente, um aspecto relevante: a importância da aliança desses países periféricos, que seria cada vez mais significante se houvesse uma maior consolidação do Mercosul. Neste caso, o enfoque internacional não poderia ser de isolamento de um país e de sua problemática, restrito aos conflitos de curto prazo, mas sim de compreender a importância desse complexo, como um todo, e atentar para objetivos de longo prazo, num mundo cada vez mais interdependente.
FONTES:
CARNEIRO, Ricardo - DESENVOLVIMENTO EM CRISE - A ECONOMIA BRASILEIRA NO ÚLTIMO QUARTO DO SÉCULO XX – UNESP/UNICAMP, 2002, SP.
VAZ, Alcides Costa - Cooperação,Integração e Processo Negociador – A construção do Mercosul – Fundação Alexandre de Gusmão/MRE.
Sítios:
www.amersur.org.ar
www.pucminas.br
www.pt.wikipedia.org/wiki/II_Plano_Nacional_de_Desenvolvimento
www.agenciabrasil.gov.br
* Trabalho realizado para a disciplina de Introdução à Política Externa Brasileira – turma RI4A, ESPM-Rio, Profª. Gloria Moraes.
[1] A importância dos mercados intra-Mercosul para seus países membros pode ser observada pelo fato de que, se em 1990 8,9% das exportações eram direcionadas para países do próprio bloco, em 1997 essa proporção chegou a 24%. Por outro lado, em 1997, 20% do total de importações dos países do bloco provinham de países do próprio Mercosul.
[2] www.bndes.gov.br/conhecimento/revista/rev1006.pdf- 1998- Acesso em 17/06/2009.
[3] Os dados podem ser encontrados na Embaixada da Argentina no Brasil.
[4] CARNEIRO, Ricardo (2002) - DESENVOLVIMENTO EM CRISE - A ECONOMIA BRASILEIRA NO ÚLTIMO QUARTO DO SÉCULO XX – UNESP/UNICAMP, SP.
[5] Revista Veja, 11/07/01.